sexta-feira, 21 de abril de 2017

ESTÁDIO PALESTRA ITÁLIA: 100 ANOS


Boa tarde!

Vamos dar uma pausa em Sgt. Peppers que faz 50 anos neste ano para falarmos do nosso Palestra. Afinal de contas, nossa casa completa hoje 100 anos de sua primeira partida.

Tomei a liberdade de transcrever “ipsis litteris” (um pouco de latim neste Palestra  Itália!!!) a bela reportagem de O LANCE, que já agradeço de antemão pela gentileza, razão pela qual o texto vai entre aspas, com exceção de algumas notas minhas, ao final de alguns parágrafos.

O texto foi organizado em capítulos e, aqui, também o fiz. Neste primeiro, um breve histórico do primeiro jogo e, nos demais, uma síntese muito bem feita acerca da história do Estádio Palestra Itália.

Para mim e para a esmagadora maioria de nossa torcida ele jamais deixará de ser... ESTÁDIO PALESTRA ITÁLIA. Sempre!

Saudades do nosso estádio... Deslumbre pelo nosso estádio!!!!
Curtam, aí...

“Cem anos de história, 1684 jogos no mesmo solo, um chão sagrado para o torcedor alviverde. Nesta sexta-feira, completa-se um século do primeiro jogo do Palmeiras no terreno de sua casa amada, onde atualmente está o Allianz Parque. No dia 21 de abril de 1917, um sábado, o Verdão - ainda como Palestra Itália - atropelou o Sport Club Internacional-SP por 5 a 1, em jogo válido pela primeira rodada do Campeonato Paulista daquele ano, no Parque Antarctica. Curiosamente, o SC Internacional foi, anos depois, incorporado pelo São Paulo.”.


aspecto da arquibancada, em 1905



o parque, em 1910

outro ângulo, em 1910

1921


 “Existem poucos relatos sobre este jogo, que hoje é histórico, mas na época foi noticiado de forma pequena pelos jornais. Para celebrar a data centenária, o LANCE! reconstrói a primeira partida - e primeira alegria - do Verdão no seu lar.”.



CONTEXTUALIZANDO O DUELO




“Mandante no jogo, o Palestra havia sido fundado em 1914, e desde então vinha procurando um campo com boas condições. Em 1917, surgiu a oportunidade de alugar o campo do Parque Antarctica . O Parque Antarctica, inaugurado em 1902, com arquibancada de madeira, foi o primeiro estádio no terreno do atual Allianz Parque.”.


“Já como locatário do Parque Antarctica, que seria comprado pelo próprio Palestra em 1920, o clube marcou o primeiro jogo do Campeonato Paulista de 1917 para o local. Era só a segunda vez do Palestra disputando o Paulista. Fundado por imigrantes italianos, o clube ainda estava começando a construir sua fama. Em 1916, ficou apenas em sexto entre sete clubes que disputaram o Paulista organizado pela Associação Paulista de Esportes Atléticos.”.

“O adversário do Palestra era o tradicional Sport Club Internacional, fundado em 1899, e um dos seis participantes do primeiro Campeonato Paulista, em 1902. O clube tinha sido campeão paulista em 1907 (seria também em 1928), mas vinha em momento complicado para o Paulista de 1917. Em 1916, o Inter-SP tinha terminado o Paulista organizado pela Liga Paulista de Foot-Ball na péssima 13ª colocação entre 14 clubes. Para 1917, os campeonatos da Associação Paulista de Esportes Atléticos e da Liga Paulista de Foot-Ball se unificaram, gerando uma enorme expectativa para aquele novo Paulistão.”.

UM SHOW DO PALESTRA

“O jogo pelo Paulistão, que era de pontos corridos, foi um massacre palestrino. O atacante Heitor, que até hoje é o maior artilheiro do Palmeiras, com 327 gols, marcou quatro naquele dia. Caetano, outro ídolo da história alviverde, fez um. O Inter só balançou a rede do Palestra uma vez.”.

“A partida acabou em 5 a 1, mas o placar poderia ter sido mais elástico: "Maior não foi a derrota porque a "eleven" italiana encontrou forte resistência no heroico defensor do goal, que foi Barreto", destacou relato da revista "O Pirralho"* de 22 de abril de 1917.”.


* Apesar do nome curioso para os dias de hoje, a revista semanal "O Pirralho" era uma das publicações mais respeitadas da cidade de São Paulo na época. A revista foi fundada em 1911 por Oswald de Andrade, um dos mais importantes introdutores do Modernismo - movimento cultural que, por sua vez, encontrou seu expoente na Semana de Arte Moderna de 1922.


“No jornal "O Estado de S. Paulo" de 22 de abril de 1917, o relato da partida também destacou a superioridade do Palestra Itália e as deficiências do Internacional: "O domínio do time italiano sobre o seu adversário patenteou-se desde logo, o que quer dizer que o Internacional precisa fortalecer-se".”.


“Outra curiosidade na crônica do "O Estado de S. Paulo" é a grafia do nome de Heitor como Ettore. Explica-se: era o nome completo do atacante, chamado Ettore Marcelino Domingues. Paulistano nascido no Brás, vindo de família italiana, Ettore virou Heitor com o tempo, pois seu nome foi sendo "aportuguesado" pelas torcidas.”.



OS RUMOS DEPOIS DA PARTIDA



“O desempenho dos times naquele duelo deu grandes pistas do que viria pela frente. O Palestra Itália terminou o Paulista de 1917 como vice-campeão, atrás somente do Paulistano, grande força da época, que faturou o seu quinto título paulista. Já o SC Internacional acabou em penúltimo, entre nove clubes.”.



“No ano de 1933, em dificuldades financeiras, tendo recebido várias propostas, o SC Internacional acabou optando por se fundir ao Antarctica Futebol Clube, dando origem ao Clube Atlético Paulista, que, por sua vez, fundiu-se ao Clube Atlético Estudantes de São Paulo em 1937, dando origem ao Estudantes-Paulista, que em 1938 foi incorporado pelo São Paulo Futebol Clube.”.




JOGO HISTÓRICO ATRÁS DE JOGO HISTÓRICO




“Depois da goleada sobre o SC Internacional, o próximo jogo do Palestra como mandante seria na terceira rodada, contra um adversário que ele nunca tinha enfrentado: o Corinthians. Em 6 de maio de 1917, data que fará cem anos daqui a alguns dias, o Parque Antarctica foi palco do primeiro Dérbi da história. Deu Palestra, 3 a 0, três gols de Caetano.”.



foto daquela tarde: nossos eternos e maiores fregueses perdiam para nós pela primeira vez, e por goleada: 3X0!

FICHA TÉCNICA

PALESTRA ITÁLIA 5 X 1 SC INTERNACIONAL
Campeonato Paulista - 1917

Local: Parque Antarctica, São Paulo (SP)
Data: 21/04/1917
Público/renda: Desconhecidos
Gols: Heitor (4) e Caetano (1), pelo Palmeiras. Cruz (1), pelo Internacional



Palestra Itália: Flosi, Bianco, Grimaldi, Picagli, Bertolini, Arturo Fabbi, Caetano, Ministro, Heitor, Orlando e Martinelli. Técnico: Ludovicco Bacchiani.



SC Internacional: Barreto, Felix, Zeca, Alimare, Joaquim, Gustavo, Almeida, Rodrigues, Cruz, Janeiro e Idoeta. Técnico: Desconhecido.



OS NÚMEROS DO PALMEIRAS NO PARQUE DOS SONHOS



Era Parque Antarctica-Estádio Palestra Itália (1917-2010)

1610 jogos
1089 vitórias
325 empates
196 derrotas
3771 gols marcados
1520 gols sofridos


Era Allianz Parque (desde 2014)

74 jogos
49 vitórias
13 empates
12 derrotas
​136 gols marcados
59 gols sofridos


A soma dos cem anos de história
​1684 jogos
1138 vitórias
338 empates
208 derrotas
3907 gols marcados
1579 gols sofridos



UM BELO E BREVE HISTÓRICO DO ESTÁDIO PALESTRA  ITÁLIA


“O Palestra Itália nasceu, em 1914, com o pensamento de ter uma casa. Na ata de fundação há um trecho: "O clube precisa ter uma casa, não só um campo para jogar, mas uma casa para abrigar toda a colônia italiana". E conseguimos.”.


“José Ezequiel de Oliveira Filho, pesquisador da história palmeirense, palestrino de 62 anos, se emociona (sic) ao falar sobre o estádio alviverde. E, de fato, há muito sentimento na atmosfera do Allianz Parque. Por baixo das toneladas de aço da arena existem raízes centenárias com a Sociedade Esportiva Palmeiras. Nesta sexta-feira, 21 de abril, completam-se 100 anos do primeiro jogo do Verdão no terreno de sua casa amada. Para celebrar a data, o LANCE! preparou uma série de quatro capítulos (um por dia até sexta) e diversos outros materiais especiais. Neste primeiro episódio, vamos recordar a compra do Parque Antarctica pelo Palestra, fruto de ação ousada que mudou para sempre a história do clube.”.



UMA VIAGEM NO TEMPO



“Remontar o passado não é fácil, trata-se de uma história repleta de detalhes. E o LANCE! contou com a ajuda de um especialista para isso. A reportagem encontrou-se com o pesquisador José Ezequiel de Oliveira Filho no Bar Dissidenti, que tem o Palmeiras como temática e fica praticamente em frente ao Allianz Parque. Entre pôsteres de ídolos e uma enorme pintura do antigo Estádio Palestra Itália, as conversas reconstruindo o passado fluíram de forma natural. Ezequiel é, ao lado de Fernando Razzo Galuppo, autor do livro "Parque dos Sonhos", lançado em 2016. A obra é uma bíblia da história do Parque Antarctica. Ezequiel viu seu primeiro jogo no estádio em 1965, aos nove anos. O Palmeiras goleou o Santos por 5 a 0. Foi a primeira de muitas alegrias no local.”.


arquibancada, em 1922

outra foto de 1922...

do mesmo ano de 1922..


O PARQUE DO FUTEBOL




“O verde do Palmeiras hoje dá o tom na frente dos bares da Rua Palestra Itália, antiga Rua Turiassú. Em 1917, no entanto, o verde que dominava o local era o da natureza. A área abrigava o Parque da Antarctica desde 1902, e antes era o local da primeira fábrica da empresa. O parque era de propriedade da Companhia Antarctica Paulista, fundada em 1885. Um ano após surgir, a empresa inaugurou naquele terreno uma indústria para a fabricação de gelo e preparação de presuntos. Em 1888, a Antarctica voltou-se para a fabricação de bebidas e daí em diante o negócio prosperou muito. Em fevereiro de 1902, a empresa abriu para o público o espaço de 300 mil metros quadrados onde funcionava a cervejaria, ali construindo um parque com bosques, brinquedos para as crianças e um restaurante. A cidade tinha poucos parques e o local rapidamente fez sucesso, apesar de naquele tempo estar em uma região que ainda era distante do centro. Vale destacar que São Paulo cresceu tanto de lá para cá, que hoje a área citada faz parte do centro expandido da cidade.”.


“No Parque Antarctica, entre espaços para piquenique e pistas de atletismo, foi criado um campo de futebol, esporte que estava sendo jogado em São Paulo desde 1895 e vinha ganhando cada vez mais força. Ali, naquele gramado acompanhado por uma arquibancada de madeira, foi disputado o primeiro jogo de um campeonato no Brasil. No dia 3 de maio de 1902, o Mackenzie College derrotou o Sport Club Germânia (atual Esporte Clube Pinheiros) por 2 a 1, na abertura do recém-criado Campeonato Paulista. O Germânia, clube de origem alemã, fez o primeiro acordo para arrendamento do campo junto à cervejaria, ainda no começo da década de 1900, e tornou-se mandante no local até 1916, quando diminuiu suas atividades esportivas por conta da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), tendo que desfazer o contrato com a Antarctica.”.

“O Parque Antarctica, com sua capacidade para até 15 mil espectadores (somando arquibancada e outros espaços), era um dos principais palcos do futebol paulista, e não ficou muito tempo sem um clube. Ainda em 1916, o America Football Club (clube paulista fundado pelo ex-jogador Belfort Duarte, que tinha esse nome em homenagem ao América-RJ) firmou contrato com a cervejaria. Porém, após um ano de dificuldades financeiras, o América passou a sublocar o espaço para outros times. Foi assim que o Palestra Itália e o Parque Antarctica cruzaram seus destinos. No contrato entre América e Palestra, firmado em 1917, ficou acertado que o clube de Belfort Duarte usaria a estrutura às terças, quintas, sábados e domingos, enquanto o Palestra usaria o local nos mesmos dias, porém na parte da tarde, para treinos e jogos.”.



O LOCAL PERFEITO




“Ter uma casa própria para que o Palestra Itália se desenvolvesse era um desejo desde o início do clube. No ano da fundação, 1914, a primeira opção surgiu em um terreno doado pela prefeitura, a Chácara Vila Clementino, mas a ideia não avançou. A partir de dezembro de 1914, o Verdão ficou sediado no campo da Rua Major Maragliano, 54, na Vila Mariana. No entanto, o terreno acidentado do local dificultava a realização de treinos e jogos - o campo ganhou o apelido de "barranco" dos palestrinos. Até 1917, o clube avaliou diversas possibilidades de mudança, inclusive com uma tentativa frustrada de um terreno às margens do Rio Pinheiros. Nada dava certo... Mas, quando tudo parecia perdido, veio a crise no América FC e a possibilidade de jogar no Parque Antarctica, um lugar muito querido pela colônia italiana, que fazia grandes festas no local.”.




arquibancada, na década de 1920...


“Assim veio o grande dia: 21 de abril de 1917. Pela primeira rodada do Campeonato Paulista, o Palestra Itália enfrentou o Internacional-SP no Parque Antarctica. O rival, fundado em 1899, foi o primeiro a sucumbir no estádio, mesmo sendo mais antigo. O Palestra goleou impiedosamente por 5 a 1.”.



“A primeira campanha no Parque Antarctica foi empolgante e o fator casa fez a diferença. O Palestra, que disputava o Campeonato Paulista apenas pela segunda vez, acabou na segunda colocação, atrás apenas do Paulistano, que faturou o seu quinto título paulista e era uma potência do futebol na época.”.



“- Nós jogamos como inquilinos em 1917, mas sempre pensando grande, planejando adquirir o campo. Em pouco tempo, a colônia se movimentou para angariar fundos pela compra - destacou o pesquisador José Ezequiel.”.




'A LOUCURA DO SÉCULO'




“O Parque Antarctica tinha se mostrado como o lugar perfeito para o Palestra crescer. Relatos dizem que, em uma reunião no clube, surgiu um grito geral: "O Parque Antarctica para o Palestra!". Em julho de 1918, foi organizada uma Comissão Pró-Estádio, que deu início às conversas com a Companhia Antarctica Paulista para comprar grande parte do parque. A ideia alviverde, arrojada, custava um valor altíssimo. A Antarctica pediu 500 contos de reis, uma fortuna. Essa quantia era superior a 30 boas residências na cidade. - É como se fosse comprar o Parque do Ibirapuera hoje - comparou Ezequiel.”.


“A conversa avançou, mas além da quantia, a Antarctica exigiu também que o América FC abrisse mão de seu contrato de locação. Porém, Belfort Duarte, presidente do América, não estava em São Paulo. Com uma séria doença pulmonar, ele tinha ido para Itatiaia (RJ) se recuperar. Em busca do sim de Belfort, o Palestra enviou o diretor Vasco Stella Farinello para a missão no Rio. Foram 12 horas de trem e cinco horas a cavalo até o rancho de Belfort. Em troca do acordo, Farinello prometeu que o Palestra iria ajudar Belfort Duarte a inscrever o América na APEA (Associação Paulista de Esportes Atléticos), para que o clube pudesse disputar o Campeonato Paulista. No fim, Farinello voltou exausto para São Paulo, mas com a notícia que todos os palestrinos desejavam.”.


as "numeradas", em 1936...


“Como arrendatário, o Palestra mandou os seus jogos no Parque Antártica até abril de 1920. Os números provam a superioridade do time no local mesmo antes de se tornar o proprietário: entre 1917 e abril de 1920, foram 22 jogos, 14 vitórias, quatro empates e só quatro derrotas, com 56 gols feitos e 29 sofridos. Finalmente, em 27 de abril de 1920, era chegado o dia de comprar o parque.”.

“As condições de parcelamento não foram muito favoráveis: uma entrada de 250 contos de reis e mais duas parcelas de 125 contos - uma vencendo em dezembro de 1921 e a outra, em dezembro de 1922. Quase todo o dinheiro envolvido veio do suor dos torcedores palestrinos - alguns com poucas posses, outros com muitas. Um nome fundamental neste processo foi o empresário italiano Francisco Matarazzo. O cheque da entrada foi assinado pelas Indústrias Matarazzo, que financiaram parte desta etapa. Posteriormente, o Palestra conseguiu pagar a segunda parcela, mas depois entrou em crise financeira e novamente recebeu suporte do Conde Matarazzo, que comprou uma parte do Parque Antarctica (onde hoje fica o Bourbon Shopping) por 187 contos de reis, possibilitando o clube a fazer o pagamento da última parcela para a Antarctica.”.


“O episódio da compra do terreno, de tão corajoso que foi, ficou popularmente conhecido como "A Loucura do Século" após ser batizado deste jeito pelo historiador Gino Restelli, em texto de 1959 que contava detalhes da aquisição.”.



“- O Palestra cresceu isso aqui na força de sua gente, principalmente dos anônimos. O (Francisco) Matarazzo teve o seu papel, como grande empresário da cidade, mas muita gente foi importante. O Palestra vendeu cartelas, passando pelos sócios, para comprar o Parque Antarctica. Dando um pulo no tempo, quando o Palmeiras construiu a Academia de Futebol, em 1991, aconteceu movimentação parecida e eu mesmo comprei seis sacos de cimento. Essa coletividade é uma característica do clube - disse José Ezequiel.”.



“Finalmente, o sonho do estádio próprio estava realizado em sua plenitude. Mas o Palmeiras sempre foi um clube de querer cada vez mais... Menotti Falchi, presidente do Palestra no período da compra do Parque, declarou ainda em 1920, ao jornal "Fanfulla", que o clube já mirava ter um estádio moderno - o Parque Antarctica tinha só uma arquibancada de madeira e um barranco era utilizado como arquibancada (com cobrança de ingressos) na lateral oposta. - Clubes menores possuem um campo. Um estádio moderno é o desejo de todo palestrino - destacou Menotti Falchi, na declaração ao jornal "Fanfulla".”.



“Muito mais estava por vir no Parque Antarctica. E não iria demorar...”.

“"O aspecto atual do estádio já é impressionante. Na entrada, o espectador notará numerosas bilheterias, 32 ao todo, para um serviço mais rápido e cômodo. Há também quatro grandes portões de acesso."”.


“Poderia até ser uma descrição do Allianz Parque, mas o texto acima é de 1933. O relato do jornal "Folha da Manhã" de 9 de agosto daquele ano mostrava a grandiosidade do estádio que seria inaugurado quatro dias depois, o Stadium Palestra Itália, o primeiro da capital paulista a ter arquibancadas de concreto armado. Proprietário do Parque Antarctica desde 1920, o Palestra Itália já alimentava a vontade de ter um campo moderno desde quando comprou a área da Companhia Antarctica Paulista. Neste segundo episódio da série "100 anos no Parque dos Sonhos", vamos contar como o parque virou um caldeirão.”. (grifo nosso)

começam as estruturas em concreto: foto de 1936...

outro ângulo, da década de 1930...




“A compra do Parque Antarctica deu início a uma série de planos que o Palestra Itália tinha para o local. O pesquisador alviverde José Ezequiel de Oliveira Filho, que escreveu o livro "Parque dos Sonhos", conta que o clube foi pioneiro em reservar uma área para a imprensa, isso quando estádio ainda era modesto: 

  - A partir da aquisição do Parque, o Palestra começou a viver uma vida cheia de projetos para o local, que na época tinha só uma arquibancada de madeira. Em 1922, o Palestra foi o primeiro clube a criar um setor para a imprensa. Era um banco-carteira, como de escola, para facilitar as anotações dos jogos. Antes, os jornalistas ficavam no meio do público nos estádios - falou José Ezequiel.”. (grifo nosso)


“O clube também queria dar mais conforto para a torcida e aumentar o estádio. O desejo virou obsessão e, em 1923, e a diretoria do Palestra organizou um concurso para o desenho do novo estádio que viria. Cinco concorrentes participaram e o arquiteto italiano Ettore Battisti levou a melhor, com projeto que misturava uma fachada de ornamentações evocativas ao universo cultural espanhol e arquibancadas com formato semelhante a do Circo Máximo, arena de jogos dos tempos do Império Romano. Este projeto não saiu do papel, por falta de condições financeiras, mas a semente do novo estádio estava lançada.”.


“As dificuldades nos cofres eram grandes. Foi aí que, assim como no episódio da compra do Parque Antarctica, os palestrinos passaram a vender carnês entre si, com o objetivo de conseguir fundos para a construção do novo estádio. Na força de sua torcida, o Palestra obteve condições para caminhar com o sonho. Em 4 de setembro de 1928, em uma assembleia no clube, levantou-se a possibilidade de o clube construir seu novo estádio no terreno onde hoje fica o Pacaembu ou em um terreno às margens do Rio Tietê. As duas ideias foram prontamente negadas por conselheiros. O Palestra Itália deveria seguir crescendo na terra que lutou para conseguir, e assim foi.”.
“No dia 10 de março de 1929, foi lançada a pedra fundamental do novo estádio. Em 1933, a sede social do Palestra foi transferida do 16º andar do Edifício Martinelli para o Parque Antarctica. E finalmente, em 13 de agosto de 1933, o clube inaugurou o imponente Stadium Palestra Itália, com capacidade para 30 mil pessoas. O primeiro estádio da capital paulista a usar concreto armado tinha arquibancadas deste tipo nos dois lados do campo. Atrás dos gols, foram colocadas arquibancadas de madeira. Em campo, o Verdão goleou o Bangu por 6 a 0, em jogo pelo Torneio Rio-São Paulo. Vale destacar que o Palestra seria campeão deste Rio-São Paulo, que foi a primeira edição da história do torneio.”. (grifo nosso)


“- O estádio de 1933 é, para a época, aquilo que a nova arena significa hoje para o Palmeiras em termos de vanguarda e transformação - disse José Ezequiel.”.



OS DETALHES DO ESTÁDIO



“Segundo relatos da época, o Stadium Palestra Itália era o estádio mais moderno do Brasil nos anos 30. Justifica-se: A arquibancada social de cimento armado, coberta, foi feita em duas partes. A metade do lado esquerdo ficou pronta em 33 e o lado direito foi entregue em 36, substituindo uma arquibancada de madeira (veja como era o estádio em 1936 na ilustração no início da nota). Sob a metade entregue em 33, foram colocadas diversas acomodações, como um grande bar para o público, vestiários de equipes visitantes, de árbitros e dos atletas palestrinos. Tudo isso era novidade na cidade de São Paulo.”.


PALESTRA ITÁLIA 8 X 0 CORINTHIANS


O primeiro ano do Stadium Palestra Itália vivenciou um dos grandes capítulos do Palmeiras. No dia 5 de novembro de 1933, em duelo pelo Torneio Rio-São Paulo, o Palestra atropelou o Corinthians por 8 a 0, naquela que é a maior goleada do Dérbi e a pior goleada já sofrida pelo Corinthians em toda sua história. Romeu Pellicciari fez quatro gols. Imparato, que era conhecido como o "Trem Blindado", marcou três. Gabardo também balançou a rede.”. (grifo nosso)



“O primeiro tempo acabou 3 a 0. No segundo, o Palestra deu um baile e fez mais cinco. Esse jogo gerou uma revolta nunca vista antes na torcida do Corinthians. Cerca de 500 sócios foram à sede do clube exigir a demissão de toda diretoria. Vândalos depredaram o local e o presidente Alfredo Schurig se demitiu (sic).”.

O eterno vexame de nossos maiores fregueses...


“O estádio foi símbolo de uma década gloriosa para o Alviverde. No embalo do novo campo, o clube ganhou o Campeonato Paulista em 1933, 1934 e 1936. Em 1940, o campo acabou perdendo o posto de mais moderno da cidade para o Pacaembu, inaugurado naquele ano. Inclusive, o Verdão passou a jogar muito como mandante no Pacaembu nos anos seguintes. Este período, inclusive, coincidiu com tempos complicados para o Palestra, que por sua ligação com a Itália, sofreu com os reflexos da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). “. (grifo nosso)

Entre 1933 e 1936...

Nota: O Palestra Itália e/ou o Palmeiras (sim, os “dois”!) é também o clube que inaugurou o Pacaembu e é o que mais levantou títulos ali. Foram 13 títulos lá dentro (os mais importantes, porque, no total, foram 26!):  Tri-Campeão Brasileiro (1960, 1967 e 1994), Tri-Campeão do Rio-São Paulo (1951, 1965 e 1993) e Campeão Paulista: 1940,1942, 1944, 1950,1959, 1963 e 1972.

Além disso, o Palmeiras também foi o primeiro clube a levantar um título no Pacaembu, ganhando dos nossos eternos fregueses: Campeão Paulista de 1940.


“Durante a guerra, em 1942, o governo Getúlio Vargas instituiu decreto que proibia a qualquer entidade o uso de nomes relacionados aos países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão). O clube sofreu pressões políticas e, sob pena de perder seu patrimônio, teve que mudar de nome: e assim surgiu o nome Palmeiras. Porém, neste cenário, era impossível investir mais no estádio.”.


Nota: a rivalidade com o São Paulo Futebol Clube data daí, porque este clube, da elite paulistana, tentou tomar o estádio Palestra Itália do Palmeiras, por conta mesmo da segunda guerra. E data daí, também o acirramento da ojeriza que a imprensa – não só a esportiva –, em sua esmagadora maioria corinthiana, tem para com o Palmeiras... Portanto, palmeirenses, a coisa vem de longe...


“- Antes do Pacaembu, o Palestra Itália era o grande estádio. Ele recebia jogos de diversos times, que pagavam ao Palestra para jogar nele. Hoje, é difícil mensurar como foram os pagamentos, se com dinheiro ou alguma troca. Mas com certeza, de alguma forma o Palmeiras recebia por alugar seu estádio. Depois, com o Pacaembu e a guerra, os investimentos no estádio ficaram de lado. Com as pressões na guerra, o clube perdeu quase todo patrimônio - frisou José Ezequiel.”. (grifo nosso)


A HORA DE UMA NOVA TRANSFORMAÇÃO


“Apenas mudanças pontuais foram feitas no Parque Antarctica até o fim dos anos 50. A iluminação do campo foi posta em 1937. No ano de 1949 foram colocados alambrados, que vieram de uma doação de um conselheiro. Em 1951, o Palmeiras construiu sua piscina olímpica atrás do gol da Avenida Antarctica e precisou tirar a arquibancada de madeira que ficava ali.”.

“Em 11 de setembro de 1958, a denominação Stadium Palestra Itália foi trocada por Estádio Palestra Itália. O fato aconteceu em cerimônia com o presidente da Itália, Giovanni Gronchi.”.

“Também em 1958, o Palmeiras reacendeu o desejo de reformular sua casa. E ousou mais uma vez. Sob o comando do engenheiro Clovis Felipe Olga, surgiu o projeto de um estádio inovador, com capacidade para cerca de 70 mil pessoas. A construção teria dois andares, um deles acima de boa parte das arquibancadas inferiores.”.



“Este projeto não saiu da maquete por completo, por limitações no orçamento, mas foi a base para as mudanças que viriam. Aí nasceu a arquibancada em forma de ferradura - que existe até hoje. Outro legado deste projeto foi o campo, que seria elevado cerca de três metros em comparação ao nível do solo, formando um fosso ao seu redor, evitando alagamentos, um problema crônico da região após fortes chuvas. A este campo, deu-se o nome de Jardim Suspenso. E a era do Jardim Suspenso reservou grandes emoções à torcida... (grifo nosso)

A última imagem do antigo Estádio Palestra Itália para o torcedor começou a nascer em 1962, depois do fechamento em 21 de abril. O dinheiro arrecadado com a venda de Chinesinho ao Modena, da Itália, serviu para que o Palmeiras investisse na remodelação da nova casa. No terceiro episódio da especial 100 anos do Parque dos Sonhos, vamos detalhar a era do Jardim Suspenso.”. (grifo nosso)


FIM DE PROBLEMA



“A principal novidade foi a suspensão do gramado em cerca de três metros. Localizado em uma área sujeita a alagamentos desde o início do século, o projeto tinha como ideia acabar com o problema. Além disso, arquibancadas atrás gol onde atualmente é o setor norte do Allianz formavam a "ferradura".”.


maquetes vencedoras de projetos do estádio: muito parecidas e com o que concretizou...

O Jardim Suspenso começava a ser erguido...

“- São dois córregos que passam por aqui. Sempre havia enchente. Antigamente, era uma várzea. Você tinha o estádio aqui e mais nada. Só o Tietê lá embaixo - diz o pesquisador palmeirense José Ezequiel de Oliveira Filho.”.
A inauguração do Jardim Suspenso aconteceu em sete de setembro de 1964, uma segunda-feira, contra a Sociedade Esportiva Guaratinguetá e vitória por 2 a 0 com gols de Ademar Pantera e Rinaldo.”. (grifo nosso)


O estádio reformado passou a abrigar o departamento administrativo e de fisioterapia abaixo do campo. Foi no Jardim Suspenso que as duas Academias do Palmeiras desfilaram o futebol. Lá também houve o recorde de público em 1976, quando o Verdão venceu o XV de Piracicaba por 1 a 0 e faturou o título paulista. Foram 40.283 torcedores, número superado somente em novembro do ano passado, no jogo do título brasileiro contra a Chapecoense, quando o Allianz Parque recebeu 40.986 pagantes.”. (grifo nosso)

“Após faturar o estadual de 1976, o clube viveu jejum de títulos dentro e fora do Parque Antarctica. Apesar disso, entre 1986 e 1990 o Verdão ficou invicto no estádio por 68 partidas consecutivas. É a melhor marca neste cem anos.”. (grifo nosso)



VOLTA DOS TÍTULOS




“Os títulos voltaram em larga escala a partir de 1993 e a torcida passou a ver grandes esquadrões em ação no Palestra Itália, mas título em casa novamente somente em 1996, com a conquista do Campeonato Paulista. Dois anos depois, veio a Copa Mercosul, aquecimento para o que vinha pela frente em 1999.”.




as mais recentes, antes da total transformação... Saudades...



O estádio passou por algumas transformações na década de 1990. O espaço vazio entre a arquibancada e a numerada descoberta ganhou arquibancada e a "ferradura" ficou completa. Foi já com o novo formato que o palmeirense comemorou a Libertadores, dia 16 de junho de 1999, diante do Deportivo Cali.”. (grifo nosso)


“Na última década do Jardim Suspenso, algumas reformas pontuais aconteceram como a criação do setor família, pequena arquibancada levantada ao lado da numerada coberta e também o surgimento do setor Visa, no centro do campo. Foi com este formato que o Verdão ganhou o Paulistão de 2008, último título do velho Palestra, e fechou as portas no dia 9 de julho de 2010, no amistoso contra o Boca Juniors.”.  (grifo nosso)
Nota: eu e a Marluce estivemos lá, neste dia...

festa que importamos dos argentinos e depois, muito tempo depois outros começaram a fazer por aqui...

dia histórico...

chegamos cedinho!....

início do jogo: Palmeiras X Boca Juniors

"sociais"...

Ingressos nas mãos, para esse dia histórico!

antiga entrada do Estádio

O Jardim Suspenso, neste dia...

“Longe de casa por mais de quatro anos, o Palmeiras enfim voltou para o lar dia 19 de novembro de 2014. O Allianz Parque chegou e já teve uma missão ingrata: ajudar o time na luta contra o rebaixamento. Foram dois jogos sem vitória no fim da temporada, mas o Verdão ficou na elite. A partir do começo de 2015, tudo mudou... O último capítulo da série 100 anos no Parque dos Sonhos fala sobre o estádio que hoje enche de orgulho o torcedor alviverde.”.

“A torcida, cansada de ser nômade, abraçou a nova casa desde o início. Não à toa, em 74 partidas disputadas pelo Verdão lá são quase 2,4 milhões de pessoas presentes e média superior a 30 mil por jogo. A presença da torcida se reflete diretamente no orçamento do clube. Desde a estreia no Allianz foram arrecadados mais de R$ 104 milhões de renda líquida.”.
“Casa nova, força da arquibancada e time forte. Os ingredientes começaram a render frutos desde o início e já no primeiro semestre de 2015 o Verdão chegou à final estadual, algo que não acontecia de 2008. Mesmo sem o título, o sinal estava dado e se confirmou na mesma temporada. Contra o próprio Santos, o Verdão faturou a Copa do Brasil nos pênaltis. Era o primeiro título no Allianz Parque em somente 38 partidas.”.

“A queda precoce na Libertadores do ano passado não desanimou a torcida e o Campeonato Brasileiro mostrou isso. Sob o comando de Cuca, uma campanha irreparável no Nacional e conquista do troféu que não era do Palmeiras há mais de 20 anos. A festa? Novamente em casa depois da vitória sobre a Chapecoense por 1 a 0 com recorde de público contando Palestra e Allianz: 40.986 pessoas. Dois títulos em 65 partidas naquela altura e mais festa.”. (grifo nosso)


“- Eramos a única torcida que comemorava o título no clube. Era tradição nos anos 1960, 1970 quando era campeão os portões eram abertos e os bares embaixo do estádio serviam cerveja e refrigerante. Passava a noite inteira festejando - explica o pesquisador palmeirense José Ezequiel de Oliveira Filho sobre a ligação centenária do estádio com a torcida.”.




um pouco da nova reforma e seu aspecto deslumbrante!!!




O FUTURO


“A parceria entre Palmeiras e WTorre é de 30 anos e depois de rusgas e desentendimentos no ano passado, quando o clube era presidido por Paulo Nobre, a situação entre as partes amenizou após a entrada de Maurício Galiotte na presidência.”.

Até mais, com mais uma conversa sobre Sgt. Peppers, que completa 50 anos em 1º de junho deste ano...




domingo, 12 de março de 2017

50 ANOS: OS HIPPIES GANHAM SUA TRILHA SONORA UNIVERSAL: SGT. PEPPER'S LONELY HEARTS CLUB BAND - II PARTE

“Qualquer que fosse o vento da época, ele também impulsionava os Beatles. Não nego que fôssemos a bandeira no mastro do navio. Mas o barco inteiro estava em movimento.”. John Lennon, Playboy, 1980.

Pausa na gravação dos clipes de Penny Lane e Stawberry Fields: a influência psicodélica;

Dando seqüência às comemorações dos 50 anos de Sgt. Peppers, vamos voltar um pouco no relógio do tempo, para começarmos entender como surgiu este disco, já que tão diferente dos outros deles, e, claro tão muito diferente dos outros, das outras bandas e artistas da época... E muito, mas muito diferente do que veio depois dele.

Voltemos ao verão de 1966 - para eles, maio/junho daquele ano. Mais precisamente o dia 27 de maio, dia em que Bob Dylan deixou os ingleses – e os Beatles – de queixos caídos com sua histórica apresentação no Royal Albert Hall. Depois daquela noite, a maior dupla de compositores da história jamais foi a mesma, confirmando o que os outros dois encontros anteriores com Dylan já os haviam transformado – senão apenas em um – Lennon.

Dylan fez de sua tempestade elétrica a transformação do folk e do pop no que chamamos modernamente hoje de rock and roll. É impossível entender o rock, da segunda metade dos anos 1960 até pelo menos o início dos anos 1990, com a ascensão das bandas de Seattle e do novo Brittop e o seu evidente declínio, depois disso, nesses tempos tenebrosos em que passamos, sem conhecer Bob Dylan e seus contemporâneos do outro lado do Atlântico.

O modo de compor (dizer) as músicas mudou. O comportamento mudou. E, como veremos, o modo de fazer discos, mudou.

Enquanto isso, o Beatle “menos ligado” a Dylan, Paul, estava junto com os demais, na noite em que Dylan apresentou Allen Ginsberg, o beatnik – que depois se tornou um dos líderes da contracultura.

Ao mesmo tempo, Barry Miles foi o organizador da primeira leitura da poesia de Ginsberg em Londres, tendo sido também mantenedor do estoque da poesia beat naquela capital, através da City Lights, de São Francisco.

McCartney, sem perder tempo, começou a andar com Miles, que o introduziu para o underground artístico de Londres, que já àquela época, fervilhava. Bebendo desta “cultura”, ou melhor dizendo, contracultura, e influenciado pela fumaça característica em seu redor. Isso se intensificou e foi um dos motivos pelos quais Paul mudou-se da residência dos Asher (dos pais de sua namorada à época, Jane Asher) para St. John’s Wood – lugar bem próximo dos estúdios de Abbey Road e, claro, dos “points” de onde a coisa “acontecia”.

olhem o que acontecia no submundo londrino: o Pink Floyd!

Sua visão de mundo mudou, sobretudo acerca de som e imagem. Era a era psicodélica que, enfim, chegava a um Beatle. E do Beatle, talvez, mais, digamos, eclético e interessado, o que o levou a declarar “Eu achava que quem fazia coisas esquisitas era esquisito. De repente, percebi que quem fazia coisas esquisitas não era esquisito, que as pessoas que diziam que eles eram esquisitos é que eram esquisitas”.

Agora, perguntamos: aonde estava John Lennon? John, à essa época, morava, a exemplo de Paul, um pouco longe disso tudo e ansiava, como Paul, a mudar-se para mais próximo do centro de Londres, o que o fez dois anos depois, inclusive mudando também de esposa.

Achava – e com razão – que ele levava uma vida suburbana e imbecilizante, “perto do clube de golfe com Cynthia”. E, ao chegar, no começo de abril de 1966, à primeira sessão de gravação de um novo disco dos Beatles (que viria a chamar-se Revolver), com um canto fúnebre monocórdico e sem nome deu a Paul total liberdade para trazer seus apoios de vanguarda, naquela que se chamaria, também incidentalmente, e que ficou na história como “tomorrow never knows”. “Abandone cada pensamento, entregue-se ao vazio...”... A partir de então, o caminho estava aberto.

Daí, para “She said, she said”, escrita apenas três semanas depois do show de Dylan, foi tudo apenas um passo.

Era o fim de uma era. Para os Beatles. E para a música. E o começo de outra, para a história. Jamais voltariam a apresentar-se num palco (com exceção do telhado da Apple), até porque havia bandas melhores que eles, neste lugar: não dava para competir com Who, Stones, Kinks, Yarbirds, bandas muito mais furiosas e performáticas ao vivo. E, claro, sua nova música contrastava muito com seu velho “setlist” dos shows: é difícl imaginar eles tocando “Baby’s in black” e “Paperback writer”, “All my loving” e “Rain” num mesmo show, por exemplo, já que havia um descompasso entre seu costumeiro público adolescente e a nova juventude que estava surgindo.

O verão de 1966, portanto, o que antecedeu ao "verão do amor" (1967) determinou novos rumos ao rock, para sempre, com estes lançamentos: Pet Sounds, dos Beach Boys, Blonde on Blonde de Bob Dylan e Revolver, dos Beatles iniciaram o mergulho no mar lisérgico. Os três tinham isto em comum: o uso de drogas para provocar a manifestação da mente, como estímulo para composição (e comportamento).

Esta expressão "que provoca a manifestação da mente" é de Humphrey Osmond, para definir o tema "psicodélico", datada de 1956.

Talvez, a primeira música que fala sobre o uso de drogas no rock surgiu com Dylan, em "Subterranean Homesick Blues": "Johnny's in the basement/Mixing up the medicine" (Johnny está no porão, preparando o remédio, isto é, extraindo a codeína do xarope para tosse que ainda podia ser comprado na farmácia.). Tal como "Mr. Tambourine Man", que sugeria que algo além do haxixe impulsionava as velas do "magic swirlin' ship" (barco mágico que gira) de Bobby.

As moscas não pousam em Syd Barrett!!! Nem no Pink Floyd!!!

Mas no caso de Dylan, o uso de anfetamina foi o que o conduziu durante esse processo. Mas no Caso de Brian Wilson, o confuso e competitivo líder dos Beach Boys, foi mesmo o LSD que o fez "viver em outro mundo", quase que para sempre. "Tomei minha cota de LSD. Isso danificou minha mente... Voltei, graças a Deus, mas não sei em quantos pedaços", disse ele, em 1975.

Wilson entrou numa paranoia de competição contra os Stones e, principalmente contra os Beatles, quando ouviu, pela primeira vez, Rubber Soul (1965), e quis dar “a resposta americana” ao disco, com Pet Sounds (1966). Mas sentiu-se extremamente inferiorizado, ao ouvir “Revolver” – e o ouviu de forma errada, já que nos EUA, não houve o lançamento de Revolver, e sim, de uma “colcha de retalhos” de Revolver e Rubber Soul: “Yesterday & Today”, como a Capitol fazia com os discos dos Beatles: fora de contexto e propósito.

Daí, como muitos americanos, Wilson não entender a progressão sequencial e óbvia de Rubber Soul, Revolver e Pepper (este último, o primeiro a ser lançado nos EUA como o original inglês).

Com a cena underground de São Francisco (Freak out, de Mother’s of Invention, de Frank Zappa) e de Nova York (Velvet Underground & Nico) fervilhando e, coincidentemente com a última turnê dos Beatles passando por lá, acredita-se erroneamente que os Beatles absorveram as cenas. Não. As suas turnês eram rápidas e mal davam tempo de parar para isso ou aquilo. As “cenas”, aliás, chegaram até eles como já dissemos lá em cima.

A cena de São Francisco, no entanto, tinha uma outra banda com uma visão psicodélica, não menos influente aos Beatles: The Byrds, que durou pouco com seu “mais sai do que entra” de integrantes e com o excesso de uso de drogas psicodélicas.

Outro que havia chegado à “cidade do momento” era Jimmy Hendrix, levado pelo ex - empresário dos Animals, Chas Chandler, no dia 24 de setembro de 1966. Foi em Londres que Hendrix, com sua primeira banda, “Experience”, tornou-se o que hoje todos nós conhecemos. Vivendo nos EUA ele não teve nenhum sucesso. Em 24 de novembro gravou seu primeiro compacto – “Hey Joe”, colocando Londres para fervilhar.

Syd, em uma apresentação no UFO

Já os supostos rivais locais dos Beatles, com “Paint it Black”, abandonavam de vez o rythm & blues e suas cantigas de angústia adolescente – Satisfaction, The last time, entre outras; os Kinks e seu líder, Ray Davies, com “Set me free”, “Sunny afternoon” e “Dead end Street”, também chegavam nas paradas; e os rapazes de Bush, The Who, com a sua performance “I can see for miles” (que eu gosto pra caramba!!!) estavam tentando enxergar a luz psicodélica, que ofuscaria a muita gente...

Menciono-os todos aqui, para podermos compreender melhor como estava Londres nos idos de 1966 e como os integrantes de todas essas bandas relacionavam-se e trocavam experiências musicais... e drogas.

Há cinquenta anos, portanto, o rock passava por transformações. Os meses de janeiro, fevereiro e março de 1967 assinalam o período das sessões gravação das músicas do disco, época em que, também, a banda começou a separar-se, como veremos mais adiante. Muita gente – leigo em matéria de Beatles ou não – ainda acredita que eles se separaram no período e nos discos que vieram depois de Pepper, conforme quase uníssono que se formou depois da separação. Mas foi com Pepper que mentalmente cada membro da banda começou a tomar o seu próprio rumo, como haveria de ser natural, se olharmos o ano de 1967 e, claro, como colocamos na bolgagem anterior, isto é, cada um começou a dar conta apenas de si e de suas respectivas famílias (exceto Paul, que ainda não era casado e John, cada vez mais fora desse mundo em que vivemos, por conta do LSD).

Todo o esforço de todos os envolvidos com o disco em torná-lo “conceitual” (tem-se a ideia e, em cima dela, faz-se a coisa do início ao fim) esmoronou-se, não somente por conta das diferenças que começavam a aparecer, mas também em razão do afastamento de Brian Epstein, que os unia, de certa forma, por conta mesmo dos egos individuais, que começavam a aflorar.

Isso não quer dizer, entretanto, que o disco não possui “certa” unidade; mas, quanto à ideia e ao impulsionamento, com certeza, Paul foi o grande responsável – para o bem e para o mal – pela elaboração do disco, quase se tornando um álbum solo dele.

É que em 1967, como já dissemos, Paul tinha mais liberdade para sorver o que acontecia na “cidade do momento” (Londres), já que havia se mudado para um local próximo aos estúdios de Abbey Road e, claro, o único beatle solteiro podia “badalar’ na noite de Londres – como o fez - , sem se preocupar em “voltar para casa”: Jane Asher, sua namorada à época era uma atriz de grande futuro e priorizava sua carreira; logo, viajava sempre e, por esta época, estava nos EUA, deixando a área “limpa” para Paul.

O fim das turnês dos Beatles significou o maior período produtivo da banda. Isto é certo. Mas não é menos certo que significou, também, esse distanciamento de interesses entre os quatro. E, claro, um fôlego para a “concorrência”, dos dois lados do Atlântico, já que as bandas, com exceção dos Stones, estavam em plena atividade, tanto de composição de discos, quanto de shows.

Falando nisso, e para que não nos alonguemos muito, a “concorrência” tinha uma banda formada em Cambridge, em 1965, chamada “Sigma 6”, que, posteriormente, ao cair seu último bastião de blues – o guitarrista Bob Klose – mudou seu nome para “The Pink Floyd Sound”, uma homenagem a dois bluesman’s norte-americanos: Pink Anderson e Floyd Council, batizada pelo seu grande, histórico e líder nato (E GÊNIO) Roger Keith “Syd” Barrett.

 Partiu, principalmente, dessa “concorrência”, em Londres, a faísca que caiu na cabeça de Paul para a ideia e construção do disco. Explico:

O Pink Floyd, já rebatizado, era – e sempre será – a banda precursora e o grande expoente do psicodelismo inglês, quiçá do mundo, já que do outro lado do Atlântico, as outras que se lhe assemelhavam não faziam nem 10% do som psicodélico que o Floyd fazia, no estúdio e principalmente ao vivo.

O Pink Floyd no UFO

É. É a minha segunda banda. Senão a primeira, já que os Beatles é “our concour”.

Conduzida pelo seu líder, Syd Barrett, a banda era, nessa época, a grande atração do “underground” de Londres. Seus shows reproduziam com fidelidade os efeitos das visões de quem toma LSD, através de “slides” coloridos com óleo que eram mostrados no palco, que proporcionavam os tais efeitos. Foi a primeira banda da história a combinar música e som.

Neste mesmo período fértil, conseguiram um contrato com a EMI, a mesma gravadora dos Beatles; possuíam um excelente compositor: Syd Barrett; e tinham o endosso de Paul McCartney, que já os conhecia de suas andanças nos clubes de shows da cidade.

Foto da entrevista que Paul deu à TV, na época, defendendo a coisa psicodélica e, por tabela, o Pink Floyd.

Gravaram o disco “The Piper at the Gates of Dawn”, o melhor disco psicodélico da história, lançado em julho/agosto de 1967, um mês depois de Pepper, por conta da agenda lotada de shows da banda, e, claro, por conta também do lançamento de Pepper... E também devido às pressões da EMI para que o Pink Floyd lançasse um “single” de sucesso, após “Arnold Layne”. Naquele tempo, o mercado de discos era feito com sucessos – isto é, “singles”, compactos de 7 polegadas e depois as bandas lançavam um LP.

PIPER... Não é melhor do que PEPPER, mas é mais, muito mais PSICODÉLICO!!!!

Esta é minha edição nacional, em estéreo...



Syd Barrett é GÊNIO!!!!

Sgt. Peppers acabou também com isso. Inaugurou outra era no mercado fonográfico.

Daí  o Floyd gravar seu “doce” compacto “See Emily Play” (a garota que começou a perder a cabeça na brincadeira, o que, claro, era uma referência a uma usuária de LSD) e a não menos doce, “Candy and a Currant bun”. “Doces” era uma das gírias que os usuários referiam-se ao LSD, cujo consumo tornou-se proibido nos anos 1960.

O Floyd tocavas nos “Clubs”, isto é, nos clubes – assim se chamavam os locais de shows, na era pré-estádios e pré-arenas (“arena”... termo para designar um local de luta... ah, essas “modernidades”...). Dois destes merecem destaque, para a cena da “cidade do momento”: Marquee e UFO. No primeiro havia uma gama de bandas um pouco mais diferentes no som – The Move e Soft Machine revezavam as noites com o Floyd.

O famoso selo Harvest, da EMI em Piper...


Já no último, o UFO, foi o primeiro clube londrino onde a psicodelia local encontrou seu grande palco e, claro, a maior banda psicodélica da história tornou-se frequente por lá, tocando em quase todas as sextas-feiras, de dezembro de 1966, até o seu fechamento, outubro de 1967.

Show de luzes e som...

Quando estive em Londres – claro! – passei por lá, naquele local histórico, que recebeu e deu palco para minha grande banda e onde Syd Barrett consagrou-se. O prédio ainda existe, mas não tenho ideia do que abriga... Quem sabe as luzes psicodélicas ainda perambulam por lá?...

Meu CD, remasterizado em estéreo e em MONO, que é como Piper  - E PEPPER  - devem ser ouvidos... Pois assim foram gravados...

Outro clube de destaque, em Londres, era o Speakasy, onde o Procol Harum (banda psicodélica, que mais tarde viria a fazer rock progressivo) apresentou “A Whiter Shade of Pale”, com a presença dos quatro Beatles, no final de maio de 1967.

Paul McCartney era presença certeira em todos esses clubes. E foi o primeiro Beatle a conhecer e ouvir o que estava acontecendo na cidade. E a conhecer a ouvir o Pink Floyd, o maior expoente da cidade, assumidamente "ligada".
cartaz de janeiro de 1967.

"Ricky Tick" era outro Clube de Londres, onde o Pink Floyd levava o psicodelismo...

Daí, cai por terra mais uma lenda sobre Pepper, que muita gente achou - a ainda acha - que é coisa de Lennon, por que era o líder natural dos Beatles (era, até Pepper, mesmo) e que era considerado um decano dos malucos de plantão. Mas foi o mais "careta" dos quatro quem descobriu o submundo londrino, e o idealizou, transformou-o, sintetizou-o, comandou-o do início ao fim em o maior manifesto da ética hippie, jamais superado por qualquer outro, num disco, neste disco: a trilha sonora universal dos hippies.

Na próxima blogagem, vamos falar mais especificamente das músicas. Acho que já podemos contextualizá-las, no tempo e no espaço... Espaço de cujo qual nada mais, nada menos do que Syd Barrett (e o Pink Floyd) é o grande porteiro, selecionando os viajantes...

"Há coisas além de baterias e guitarras que devemos tentar. Nos últimos anos, estamos à vontade, considerando que as pessoas se acostumaram a comprar nossos discos... Podemos fazer o que nos agrada sem nos conformar ao padrão pop. Não estamos envolvidos apenas com música pop, mas com toda a música e há muita coisa para conhecer.". George Harrison, 1967.

"Percebemos pela primeira vez que um dias alguém estaria segurando algo chamado 'o novo disco dos Beatles', e normalmente isso seria só uma coleção de músicas com uma foto bonita na capa, nada mais. Então a ideia era criar algo completo com que a pessoa pudesse fazer o que preferisse; só que oferecido de forma mágica.". Paul McCartney, 1967.

"Sempre detesto ouvir partes de minhas músicas que não ficaram boas. Há partes em 'Lucy in the Sky' de que não gosto. Parte do som de 'Mr. Kite', não ficou bom. Gosto de 'A Day in the Life', mas não ficou tão legal quanto eu achava quando a fizemos. Creio que deveríamos ter trabalhado mais nela. Mas não levantei a bunda para fazer nada.". John Lennon, 1968.

"Pessoalmente eu não gosto mais de ser um Beatle. Toda essa coisa 'Beatle' é trivial de desimportante. Estou farto dessa ideia de eu, nós e todas as coisas sem sentido que fazemos. Estou tentando encontrar soluções para coisas mais importantes na vida.". George Harrison, 1967.

"Paul vinha ouvindo muita coisa de vanguarda(...). Ele tinha dito a John que gostaria de incluir uma passagem com esse clima vanguardista. Teve a ideia de criar uma espiral ascendente de som, sugerindo que começássemos a passagem com todos os instrumentos na nota mais grave, progredindo até a mais aguda, cada um a seu tempo.". George Martin, 1967.

"Brian Epstein com certeza temia que eles estivessem indo muito além da cabeça do público - particularmente com 'A Day in the Life' - . No que lhe dizia respeito, os Beatles se resumiam a shows ao vivo e garotas gritando. Ele achava que a banda se enterraria no próprio traseiro se continuasse a fazer aquela merda esquisita... Eu presenciei o final de uma conversa. Ele estava muito descontente com a direção tomada, e Paul o tranquilizava, 'Vai dar tudo certo. Todo mundo vai adorar.'". Miles

"Gravar foi muito simples. Trabalhamos no primeiro trecho, que era de John, e então Paul disse que tinha alguma coisa. Então gravamos esse trecho. Mas havia esse espaço gigante entre os dois, então contamos os compassos e pensamos em preencher depois. Nesse ponto já nos sentíamos à vontade no estúdio e com que tentávamos fazer. Fazia parte do jeito como trabalhávamos... Não sentávamos e reclamávamos, 'Ai, meu Deus, olha o que estamos fazendo.' Era simplesmente 'Vamos fazer isso'.". Ringo Starr, 1987



Paz e amor, sempre, a todos...


domingo, 15 de janeiro de 2017

50 ANOS DE SGT. PEPPERS - 1ª PARTE


 Boa tarde a todos,

Com enorme satisfação, voltamos neste ano de 2017, para a nossa primeira conversa, sobre os 50 anos de Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, para mim e para muitos, o maior disco de rock de todos os tempos. Há controvérsias – sérias, mesmo – mas somente existem para comprovar que, claro, como já foi dito: “toda unanimidade é burra”.

A capa mais icônica, famosa, copiada e parodiada da história do rock de todos os tempos estava quase pronta....

Escrever sobre Sgt. Peppers não é tarefa fácil. As emoções precisam ficar um pouco de lado e o nosso senso crítico, aflorar.

Estaremos, talvez, em duas ou três blogagens desta para podermos entender um pouco deste disco que revolucionou – SIM – a música pop, e grande parte do comportamento jovem.

Tentaremos contextualizá-lo à sua época, já que se trata de um álbum datado (e atemporal, para nós, adoradores), tarefa esta que ele mesmo realiza, de per si, quando se escuta. Digo-lhes isso, porque é impossível escutar Sgt. Peppers sem automaticamente levar sua mente ao emblemático ano de 1967.

Para tanto, precisamos voltar para trás no relógio cronológico da história, e dar uma olhadela nos motivos pelos quais a música – dos Beatles e de sua geração – mudou tanto, da primeira à segunda metade dos anos 1960. Daí, quando alguém fala ou escreve acerca dos anos 1960 deve precisar a QUE parte desta década se refere, no que toca ao rock, comportamento, etc.

Quando observávamos essas pessoas dizerem sobre os anos 1960 achávamos que a década referia-se a um todo, mas, com um pouco mais de estudo e compreensão chegamos à conclusão que o mundo era um, antes de 1966, e, evidentemente outro, após este ano.

Por exemplo, existe uma longa diferença entre “It’s only love”, de Help! (1965) e “I’m only sleeping”, de Revolver (1966). Nem parecem músicas de uma mesma banda... e, no exemplo, do mesmo autor (John). E, o intervalo entre ambas medra pouco mais de um ano, um ano e meio, no máximo...

Quando neófitos em Beatles – se é que um dia fui! – não percebíamos as drásticas mudanças, através das capas dos álbuns e da sonoridade. Quanto mais tentar entender o porquê disso tudo. Quando vamos amadurecendo no rock, vamos também contextualizando-o historicamente: o porquê do rock progressivo, por exemplo. Ouvir Led Zeppelin sem sequer entender de onde aquilo tudo vem é como comer um bolo de chocolate sem degustá-lo e sentir seus aromas e sabores... Isto não quer dizer que se deva “consumir” o rock com profundidade ou cheio de frescuras. Não. O rock foi concebido pela e para as massas, não para estabelecermos rituais para sua audição... Se bem que, do jeito como as pessoas, hoje, andam chatas, é bem capaz...

Mas também, precisamos saber por que, onde, como as grandes bandas de rock fizeram suas grandes músicas, seus grandes álbuns. Saber o que lhes moveu é estar contextualizado, bem preferível a estar “atualizado”, porque, penso, o rock, nos dias de hoje, “respira por aparelhos”... Se já não os desligaram.

Então, se você, que me lê, gosta desse estilo, desse tipo de música, é importante que você passe por todos esses elementos, quando puxar um LP de sua estante e colocar a agulha para sulcar. Como um livro que você lê e tenta penetrar em seu contexto. Com a música ocorre o mesmo.

Vejo hoje uma avalanche de relançamentos em vinil – falamos em LP? – no mercado, bem como as notícias que dão conta da reabertura de antigas fábricas, na Europa, nos EUA e, aqui perto de nós, na Argentina. Há também relançamentos de novos modelos de toca discos, como a japonesa Technics.

Isso tudo não significa contexto, ainda que haja um outro aí contido. É quase como estar “atualizado”, em mais uma tendência de modismo, sofisticação e descolamento, dessas que o sistema usa para nos pegar (pegadinha, mesmo).

Preços astronômicos e muita gente ganhando muito dinheiro com isso. Nada contra em “ganhar dinheiro”. Mas, será que não estamos sendo enganados com toda essa onda de “vintage”?

Em algumas blogagens lá trás chamei-lhes a atenção da questão da gravação analógica e digital dos discos; que essas gravações tem diferenças; que, uma banda que, no passado, gravou um disco em analógico é preferível ouvi-la em analógico; que uma banda que grava em digital, deve-se ouvi-la em digital... Resumindo, se um artista é da época do vinil, ouçamo-no em vinil; se faz parte do contexto digital, CD, ouçamos o seu CD. Reverter, descontextualizar um e outro é, no mínimo, desonestidade, beirando a charlatanismo, dadas as diferenças gritantes de um modelo para outro.
  
Sei que tem todo um apelo à nostalgia, quando os neófitos pegam um LP nas mãos (quando sabem pegá-lo). É chique, não é mesmo? Não quero dizer com isso que nós, os supostos mais velhos fazemos parte de uma casta celeste seleta “que viveu em determinada época” e que por isso somos privilegiados, à parte dos que não tiveram o prazer de colocar um disco na vitrola. O problema reside sempre, em se tratando de rock particularmente, em a medida de influência que determinadas coisas exercem sobre você; será que você realmente escutou ou escuta rock?

Falando em contexto, lembrei-me da série “Guerra nas Estrelas” e seu contexto. Escrevei, recentemente, numa dessas redes sociais, acerca de uma propaganda de uma prefeitura daqui do interior de São Paulo, que desvirtuou completamente o legado da saga, invertendo “as bolas”, para chamar a atenção sobre a epidemia de dengue no local.

Quer dizer, as pessoas assistem, vão ao cinema, consomem, compram... E não entendem? A velha história pura e simples do bem contra o mal? Fiz um gracejo com a expressão que tomou conta nestes tempos mais modernos... “Star Wars”. Disse que a criatura que elaborou a tal propaganda precisa assistir à Guerra nas Estrelas... e não “Star Wars”...

Trocar os sabres de luz e os personagens – Darth Vader, ainda que seja, talvez, o personagem mais emblemático da saga, ainda é a personificação do mal... Ainda que depois, convertido, fica sua imagem associada ao mal.


Recentemente estivemos no cinema, aqui no interior, e "achei-os" novamente... Lembro-me muito bem deles...

Só mesmo uma sociedade onde os valores estão completamente invertidos, ou desprovida de quaisquer valores - que não os monetários -, pode fazer tamanha lambança!

É por isso, então, que devemos entrar no contexto de Sgt, Peppers, e, sobretudo, o que é mais importante: ESCUTÁ-LO dentro de seu contexto, porque ainda vamos ver e ler muita abobrinha sobre ele e sobre os Beatles, no decorrer deste ano... Ainda mais neste ano, ano de seu cinqüentenário.

O que era o mundo, em 1966/1967? O que estava “em jogo” naquele período? Havia a guerra fria, a luta de grande parte do ocidente contra o bicho-papão comunismo... A sociedade patriarcal, os “valores” da família, da “religião”, do “trabalho”... A guerra do Vietnã... Não existiam computadores, celulares, “internet”, jogos “on line”, televisão de LED “smart”... Pouquíssimas pessoas no mundo, aliás, tinham uma TV em cores!... Vejam vocês... A Inglaterra era a atual campeã do mundo de futebol!!!!... Falando neles, a homossexualidade era proibida, por lá...

Falando em proibição, no Brasil, vivíamos uma ditadura militar, com perseguições, torturas e mortes sem fim, com censura nos meios de comunicação, de artistas, do pensamento, etc... O mundo era radicalmente diferente do nosso, de hoje. Ou será que, “apenas guardadas as devidas proporções”?...

Trazer, portanto, Sgt. Peppers para os dias de hoje não é tarefa fácil.

1966 – REVOLVER TUDO.

Os Beatles estavam amadurecendo a ideia, por eles mesmos, de que iriam dar um basta nas turnês. Após o lançamento de REVOLVER, em 5 de agosto daquele ano, já dissecado aqui no meu blog, essa ideia tomou forma e partiram, então, para  a sua última, que se iniciou em 11 de agosto, percorrendo algumas cidades dos EUA, que já estavam sob contrato, que deveriam cumprir.

No Candlestick Park, em São Francisco, em 29 de agosto, apresentaram-se, em turnê, pela última vez. Não foi a última apresentação ao vivo, como erroneamente muitos dizem: a última foi no telhado do prédio da Apple, em Londres, no dia 30 de janeiro de 1969.

Voltaram a Londres e, também, pela primeira vez, cada membro do grupo foi para um lado:

John foi participar do filme de Richard Lester (que dirigiu “A Hard Day’s Night” e “Help!”), How I Won the War. As primeiras filmagens foram feitas na antiga Alemanha Ocidental, e as demais na Espanha. Somente Neil Aspinall estava com ele. Foi nesta época, fora das filmagens, que ele começou a usar seus óculos redondos. E também foi na Espanha que começou a escrever Strawberry Fields Forever, a primeira a ser concebida para o novo álbum;

Ele até cortou o cabelo, estilo militar e o óculos já era um esboço do que viria...

Paul foi o único dos quatro que ficou em Londres. Como eu já escrevi aqui no blog, Paul começou a freqüentar o “underground” londrino e absorver-lhe a cultura – quero dizer, a CONTRACULTURA!. Isso foi a pedra fundamental da concepção e da elaboração de Sgt. Peppers, como veremos mais pra frente. Nesse ínterim escreveu a trilha sonora do filme The Family Way, a convite de George Martin;

Ringo preferiu viajar e estar com sua família, já que Maureen, sua esposa à época, estava grávida;

George vai à Índia, no dia 20 de setembro de 1966, com sua esposa, à época, Pattie Boyd, a fim de estudar cítara, ioga, filosofia e religião local.

Brian Epstein, a seu turno, depois que foi comunicado pelos quatro de que não mais fariam turnês, ficou meio sem ter o que fazer e dizer, e foi cuidar de sua peça teatral, no Saville Theatre.

Eram suas primeiras férias, e o público e os fãs não estavam acostumados com isso. Daí os boatos, naquele tempo, da separação do grupo. Vez ou outra Brian ia à imprensa desmenti-los. Nem estavam acostumados a ficarem sem novos lançamentos dos Beatles. Pela primeira vez, desde 1963, não havia um novo produto dos Beatles para o fim de ano. Nasce a primeira coletânea oficial da banda: A Collection of Beatles Oldies... But Goldies, lançado em 9 de dezembro de 1966.



A primeira coletânea oficial... Este exemplar é o primeiro estéreo, nacional, de 1972!
 Trata-se de uma coletânea onde figuram algumas gravações apresentadas pela primeira vez em estéreo (editadas, pois, como já lhes disse os Beatles, até o Álbum Branco, gravavam tudo em mono), e “Bad Boy”, tida como inédita em disco, tendo sido apenas lançada no LP norte-americano Beatles VI, em 1965.




Meu exemplar mono, de época, nacional, de 1967.

Outro fato, não menos importante para, principalmente, o futuro da banda, aconteceu no dia 9 de novembro, quando John, ao visitar a Indica Art Gallery, em Londres, conhece a artista plástica Yoko Ono, de péssimas lembranças para todos nós, amantes dos Beatles...

Data dessa época, também, a mudança de visual da banda: todos de bigode, John de óculos, George de barba... Se alguém ainda tinha esperanças (Brian e muitos fãs adolescentes) de que os Beatles voltariam a ser os mesmos, fazendo o relógio voltar para trás e cantar iê, iê, iê...


Aliás, George e principalmente John já usavam LSD regularmente... Ringo e bem depois Paul passou a usá-lo. Outro aspecto fundamental de Sgt. Peppers.

24 de novembro de 1966 – A PRIMEIRA SESSÃO DE GRAVAÇÃO DE SGT. PEPPERS.

Nesta noite a banda reúne-se, nos estúdios Abbey Road, para aquela que foi a primeira sessão de gravação de Peppers: na pauta, a música que John começou lá na Espanha: Strawberry Fields Forever. Novos instrumentos, novo visual, novas roupas psicodélicas, novas letras, efeitos, sonoridades, técnicas de gravação... Os Beatles e o mundo já não eram mais os mesmos.

John, na porta de Abbey Road, dá entrevista, explicando o "novo" estilo e disco do grupo, em 20/12/1967

Enquanto isso, desde a segunda metade de 1966, as noites do “underground” londrino fervilhava, com a luz psicodélica de seu grande e principal expoente: Pink Floyd, juntamente com a mais “nova” novidade do pedaço: The Jimmy Hendrix Experience, com seus costumeiros notívagos The Move e Soft Machine. Do outro lado da rua, no mesmo endereço, com seu blues psicodélico, o maior “power trio” da história: Cream; e os velhos rapazes de Bush, quebrando tudo: The Who... Ah, a Inglaterra... Londres... Até Janis Joplin rendeu-se à magia daquele ambiente, quando lá chegou pela primeira vez em 1968... Como eu não iria render-me, quando lá estive, em 2014?...


Estação de Marylebone, onde foram gravadas algumas cenas de A HARD DAY'S NIGHT... Subindo ou descendo? Não me lembro!!!!

Brincando um pouco na faixa falsa, a que todo mundo atravessa, pensando ser a verdadeira...

é NÓIS no tube...




É impossível contextualizar e falar de Peppers sem esse ambiente. Vamos falar um pouco dele, e de minha segunda banda, o Pink Floyd, na próxima blogagem... Até lá!!!