domingo, 28 de maio de 2017

50 ANOS DE SGT. PEPPER’S: A TRILHA SONORA UNIVERSAL DOS HIPPIES!

50 ANOS DE SGT. PEPPER’S: A TRILHA SONORA UNIVERSAL DOS HIPPIES!

Boa noite!

Estou virando um notívago, deste jeito, igual aos Beatles com Pepper!!!!

Hoje vamos falar, finalmente, das letras de Sgt. Peppers. Às vésperas de completar 50 anos de seu lançamento, o disco, que foi um dos protagonistas das revoluções que aconteceram nos anos 1960 – artísticas, políticas, filosóficas, comportamentais, etc., tem de ser entendido através de seu contexto – que já colocamos nas outras conversas – e de sua mensagem, isto é, “do que se quer dizer”... Ou, o que os Beatles – e particularmente John, nesta música, em específico – querem ou quis dizer como “I’d love to turn you on”...


As razões pelas quais o mundo estava mudando naquela época perpassam pela audição de Sgt. Peppers. Não somente dele, em verdade. Mas dele também. É impossível compreender o mundo dos anos 1960 – principalmente de sua segunda metade para frente – sem ter a experiência nos ouvidos e na alma de ouvir Sgt. Peppers.


Em 1966, por exemplo, os Beatles já haviam mudado o modo de compor as canções, deixando a Beatlemania no passado e bebendo de influências diversas para a composição das músicas e, claro, para condução de suas próprias vidas. É com Pepper que cada um toma o seu próprio rumo. É com Pepper que cada um solidifica esse processo de transformação íntima que se inicia com Rubber Soul (1965), confirma-se com Revolver (1966) e tem seu ápice em Pepper, no ano de 1967.


As declarações de John sobre o Cristianismo haviam gerado muito desconforto e incertezas. Basta assistir aos depoimentos dos outros três, em Anthology, sobre o assunto. Até a Ku Klux Klan organizou protestos – aproveitando se tratar de uma banda britânica e não norte-americana, o que corroborou com o clima hostil de grande parte da imprensa dos EUA, já que tais declarações não tiveram o mesmo impacto no Reino Unido. Longe disso. Em 1966, os Beatles ainda gozavam de grande prestígio por lá.


A banda também havia decidido acabar com as turnês – enfadonhas e, muitas vezes, bisonhas: falta de segurança, recursos técnicos (som mais potente e melhor, iluminação, etc.) para apresentações ao vivo, dentro de um contexto de histeria coletiva, o que redundou numa permanência maior dentro do estúdio e dentro de si mesmos. Sem contar a questão das Filipinas, ocasião em que quase foram linchados, por declinar de um convite das autoridades para aqueles eventos que eles detestavam, e já não mais estavam a fim de aturar, nem por boa educação.


Acabar com as turnês gerou dúvidas e expectativas entre a opinião pública – que, à época, era formada de jornalistas, que não estavam acostumados a escrever sobre música e bandas de rock, na era pré- Rolling Stone e outras – e os fãs, que não estavam acostumados a ficar mais de 6 meses sem um novo disco dos Beatles rodando em suas vitrolas. Os boatos de que a banda havia acabado começavam a surgir com muita força.


Como já dissemos, o fim das turnês representou uma maior liberdade para todos.

O contato com outras culturas – indiana, no caso de George - , com outras bandas e músicos levou, principalmente Paul a encaminhar os Beatles para outra dimensão. Literalmente.


A evolução, musical e contextual, foi evidente. O uso de drogas como maconha, a partir de 1964 e LSD, a partir de 1965, mudou o tema das composições e aquela imagem de quatro rapazes ingênuos e bonzinhos não interessava mais a eles. Buscavam, sobretudo, a partir de então, falar sobre suas experiências, com drogas e na vida. Com isso, com a nova música, novos recursos técnicos foram exigidos para ilustrá-la, dando melhor contorno à criatividade, palavra que estava na ordem do dia para Paul e John, os dois principais compositores e condutores da banda.


Como já dissemos, em 6 de dezembro de 1966 a banda entra em estúdio novamente, sob a influência de discos como Pet Souds (Beach Boys) e Freak Out! (Frank Zappa) e com todo o conhecimento que Paul adquiriu no contexto psicodélico londrino, para gravar mais um disco. O projeto mais audacioso da banda, até então. Além de ambicioso, extremamente diferente: Gravações eram comprimidas, condensadas, distorcidas ou excessivamente equalizadas para atender às exigências dos Beatles. Sons carregados de eco, fitas de gravações rodadas ao contrário e vozes e instrumentos com velocidades alteradas mostravam que algo muito revolucionário estava sendo criado.


Após 129 dias e aproximadamente 700 horas de gravação, 5 meses para lançar o disco, mais 105 horas de gravação de “Penny Lane/Strawberry Fields Forever”, as 13 canções do novo álbum estavam concluídas (12, já que a primeira e a reprise são as mesmas); agregando música indiana, jazz, sons invertidos, grandes orquestras, baladas e barulhos de animais à música pop. Com Sgt. Peppers, o rock e o pop deixaram de ser apenas estilos, para alçar ao patamar de arte. É evidente que isso tem seus prós e contras, já que o disco sugere ser analisado – e criticado – como se arte fosse, deslocado de seu contexto temporal, como deve ser analisado: é talvez, também, o único disco dos Beatles datado, não atemporal, musicalmente falando: é impossível olhar Pepper sem olhar o “verão do amor” (verão de 1967, no hemisfério norte), a contracultura e todo o seu contexto; e é quase impossível tirar Pepper dali.


Isto posto, agora vamos colocar as músicas na ordem em que elas aparecem no disco, para muitos que ainda não o conhece (será que ainda existe alguém, neste mundo, que gosta de rock e nunca ouviu Sgt. Pepper na íntegra?):


Lado “A”

SGT. PEPPER’S LONELY HEARTS CLUB BAND
Gravação: dias 1 e 2 de fevereiro; finalizada em 3 e 6 de março de 1967.

Composta por Paul, a canção dá a ideia de uma apresentação ao vivo, onde a banda é apresentada.

Como já disse, Paul teve a ideia do disco num voo de Nairóbi a Londres, no dia 19 de novembro de 1966, matutando nos dias em que tinha que sair disfarçado para fazer compras ou passear, sem ser incomodado pelos fãs. A máscara foi transporta para a banda, que, mascarada pelo sargento pimenta, teria mais liberdade.

A origem do nome – Sgt. Pepper - ainda é motivo de discussão, 50 anos depois. Há quem diga que foi Mal Evans, antigo empresário das turnês dos Beatles, quem criou o nome, como um substituto engraçado para “salt’n’pepper”; outros, porém, sugerem que o nome vem de um refrigerante americano popular chamado Dr. Pepper.


WITH A LITTLE HELP FROM MY FRIENDS
Gravação:  dias 29 e 30 de março de 1967.

Hunter Davies, biógrafo autorizado dos Beatles, esteve na casa de Paul, na Cavendish Avenue, na tarde de 29 de março de 1967, onde também estava John e Cynthia, e acompanhou o processo de composição desta música. Segundo ele, no seu livro (que ganhei de minha esposa, uma edição de época, de 1968), “Eles queriam fazer uma música ao estilo de Ringo. Sabiam que teria de ser para as crianças, uma música para cantar junto. Eu gravei os dois tentando fazer todas as rimas funcionarem e, em algum lugar, tenho a lista de todas que não foram usadas”.

John sugeriu a Paul para que começassem os refrões com uma pergunta. A frase “do you believe n love at first sight?” não tinha o número certo de sílabas, então se tornou “a love at first sight”. A resposta de John foi “yes, I’m certain that it happens all the time”, que foi seguida de “Are you afraid when you turno n the light?”, mas reformulada com “what do you see when…”, descreve Davies.

Então Cynthia Lennon sugeriu “I’m just fine”, como resposta, mas John não gostou. Em vez disso ele tentou "I know it’s mine” e acabou criando o verso “I can’t tell you, but I know it’s mine”, que é mais substancial.

Uma gravação estava marcada para as sete da noite (sim, deem uma lida nas minhas publicações anteriores: os Beatles, à esse tempo, gravavam em Abbey Road à noite e viravam a madrugada) e eles telefonaram para Ringo, para dizer que a música dele estava pronta, ainda que a letra não estivesse no ponto. Finalizaram-na no estúdio, onde 10 takes foram gravados naquela mesma noite. Como John estava com um dedo machucado, ela ficou conhecida inicialmente como “Bad Finger Boogie”, mas acabou com o título que já conhecemos. Ringo canta, representando “Billy Shears”, que é apresentado no final da faixa anterior.


LUCY IN THE SKY WITH DIAMONDS
Gravação: dias 1 e 2 de março de 1967.

Apesar de tantas controvérsias, a ideia da composição foi tirada do desenho de Julian, filho de John e as iniciais formando LSD é pura coincidência. Detalhe: Julian, o garoto prodígio, feito o pai, já dava nomes aos seus desenhos, já que, à época, tinha apenas 4 anos de idade (Julian nasceu no mesmo dia em que eu nasci, 8 de abril, em 1963). Que garoto!!!! É claro que se trata de uma alusão direta ao LSD!!!!

Julian conta: “Não sei porque eu dei aquele nome [ao desenho] nem por que se destacou entre todos os meu outros desenhos, mas eu obviamente gostava muito de Lucy. Eu mostrava tudo o que fazia ou pintava na escola ao meu pai, e esse desenho levou à ideia de uma música sobre Lucy no céu com diamantes.”.

Lucy O’Domnell (foi professora de crianças com necessidades especiais) vivia perto da família de Lennon, em Weybridge, e ela e Julian eram alunos da Health House, um jardim de infância administrado por duas senhoras em uma construção eduardiana. “Eu me lembro de Julian na escola”, conta Lucy, que só soube ao 13 anos que havia sido imortalizada por uma canção dos Beatles. “Eu me lembro bem dele. Posso ver seu rosto claramente... nós costumávamos sentar lado a lado naquelas carteiras bem antigas. A casa era enorme, e havia cortinas pesadas para dividir as salas. Pelo que me disseram, Julian e eu éramos duas pestes.”.

As imagens psicodélicas que a canção descreve vem das leituras de John de “Alice no País das Maravilhas”, quando criança. Ele somente transportou certas passagens da história para a era psicodélica (claro, com uso de LSD, para saber que tipo de analogia criar). Foi graças a estas leituras de infância que John resolveu que suas ideias não se tratavam de alucinações, mas sim, que eram coisas normais na mente dele: “Surrealismo para mim é realidade (...) A visão psicodélica é realidade para mim e sempre foi.”.

Outra inspiração de John era um seriado muito famoso da rádio BBC, chamado “The Goon Show”, que satirizava figuras famosas, políticos, etc., do “estabilshent”, atacavam o conservadorismo inglês do pós- guerra, popularizando um humor bem “nonsense”. Dá pra perceber de onde veio o costumeiro sarcasmo de John em suas composições.

O produtor do “The Goon”, Spike Milligam disse que a frase “plasticine porters with looking glass ties”, veio de uma brincadeira que faziam no seriado, com “plasticine ties”.

Quando Paul chegou à casa de John para trabalhar na música, John só tinha o primeiro verso e o refrão. De resto, só algumas frases, versos, imagens trocadas. Paul inventou “newspaper taxis” e “celofane flowers” e John “kaleidoscope eyes”.


GETTING BETTER
Gravação: dias 9 e 10 e dias 21 e 23 de março de 1967.

Naquela época, John e Paul inspiravam-se em tudo o que estavam à sua volta. A ideia desta música começou num passeio de Paul, Martha (sua cachorra) e Hunter Davies, numa tarde de primavera ensolarada. Quando se referiu ao tempo que fazia naquele dia, disse a Davies que “estava melhorando”, e que a “primavera estava chegando”, o que o levou imediatamente a lembrar de Jimmy Nicol, o baterista que substituiu Ringo em cinco shows da turnê de 1964, pela Oceania.

Jimmy, ao término dos shows, sempre era perguntado pelos outros três Beatles se estava tudo bem, como ele estava se sentindo e ele respondia sempre com a mesma frase: “está melhorando”.

Depois da caminhada na Primrose Hill, Paul voltou para sua casa em St. John’s Wood e cantou a frase repetidas vezes, enquanto fazia a melodia no violão e depois no piano. À noite, John apareceu e eles terminaram juntos a música. George toca tamboura e Ringo, bongôs.


FIXING A HOLE
Gravação: dias 9 e 21 de fevereiro de 1967.

Paul compôs e também tocou cravo. A canção começou a ser gravada nos “Regent Sound Studios,”  já que o Abbey Road estava ocupado no dia (provavelmente pelo Pink Floyd). Sugeriram, à época, que a música fazia alusão aos “buracos” de picada de agulha, para uso de heroína, mas nem Paul e nem George e Ringo nunca chegaram a usar a droga. Apenas John viciou-se nela, por volta de 1968, outro “presente” de sua companheira, à época, cujo nome evito dizer aqui. Ela o introduziu neste vício.

A canção fala da liberdade de se fechar os buracos e as fendas que permitem aos inimigos da imaginação por ali penetrarem. “É o buraco em você que permite que a chuva entre e impeça sua mente de ir aonde quer ir”, explica Paul.

Com certeza, parte da música também se refere à propriedade que Paul adquiriu em 1966, um refúgio escocês, em High Park, que estava em péssimas condições, ao abandono, quando ele a adquiriu.

Paul decorou-a “de um jeito colorido”, conta Alistair Taylor, assistente de Epstein, que acompanhou Paul e Jane Asher em sua primeira visita na casa. Paul comprou um monte de canetas coloridas e os três passaram horas a rabiscar a casa inteira.

Em 1967, em uma entrevista com o artista Alan Adrigdge, Paul foi sondado sobre as associações com drogas: “Se você é um viciado sentado em uma sala preparando uma dose, então é isso que ela significa pra você, mas quando a escrevi o que quis dizer é que se há uma rachadura, ou se a sala não tem cores, eu vou pintá-la”, disse.


SHE’S LEAVING HOME
Gravação: dias 17 e 20 de março de 1967.

Entre 1966 e 1967 eram muito comum na Inglaterra e nos EUA as notícias sobre adolescentes fugindo de casa, para viver novas experiências, por conta dos hippies e da contracultura, que tinham o abandono dos costumes postos como um de seus modos de vida e de comportamento: largar a família, os costumes, o consumismo em prol de uma vida livre, igual, sem as pressões da vida moderna, da família, dos pais, estava na ordem do dia para muitos jovens da época.

Timothy Leary, o guru do LSD e da contracultura incitou seus seguidores a “desertarem”, cujo lema era “sintonize-se, ligue-se, caia fora”. Os jovens abandonavam o emprego formal e a escola. Só o FBI, na época, anunciou 90 mil fugitivos naquele ano, em sua grande maioria para São Francisco, meca da contracultura norte-americana.

Paul viu uma dessas notícias num jornal londrino, em fevereiro de 1967, de uma garota de 17 anos que tinha sumido de casa fazia mais de uma semana. O pai, aflito, foi citado, ao afirmar: “Não consigo imaginar por que ela fugiria. Ela tem tudo aqui.”.

A fugitiva era Melanie Coe, que vivia com os pais em Stamford Hill, no norte de Londres. As únicas diferenças entre a história dela e a cantada na música são que ela conheceu um homem em um cassino, em vez de “na loja de carros”, e que ela saiu de casa à tarde, enquanto os pais estavam no trabalho, em vez de pela manhã enquanto dormiam. “O impressionante sobre a música era o quanto ele acertou sobre a minha vida”, diz Melanie. “Falava dos pais dizendo ‘we gave her everything Money could buy’, o que era verdade no meu caso. Eu tinha dois anéis de diamante, um casaco de pele, roupas de seda e ‘cashmere’ feitas à mão e até um carro.”.

 Melanie continua: “Depois, havia um verso que falava ‘after living alone for so many years’, o que realmente me tocou porque eu era filha única e sempre me senti sozinha. Nunca tive diálogo com nenhum dos meus pais. Era uma batalha constante. Eu sai porque não conseguia mais encará-los. Ouvi a música quando foi lançada e pensei que era sobre alguém como eu, mas nunca sonhei que na que na verdade fosse sobre mim. Eu me lembro de pensar que não tinha fugido com um homem do mercado de automóveis, então não podia ser eu! Eu devia estar na casa dos vinte quando minha mãe disse ter visto Paul na televisão, e ele tinha dito que a música era sobre uma matéria de jornal. Foi quando comecei a dizer aos meus amigos que era sobre mim.”.

“Minha mãe não gostava de nenhum dos meus amigos. Eu não podia levar ninguém para minha casa. Ela não gostava que eu saísse. Eu queria atuar, mas ela não me deixou ir para a escola de teatro. Ela queria que eu fosse dentista. Ela não gostava de como eu me vestia. Ela não queria que eu fosse nada que eu queria. Meu pai era fraco. Ele acatava qualquer cosa que minha mãe dissesse, mesmo que discordasse.

FELIZ COINCIDÊNCIA!

Foi através da música que Melanie encontrou consolo. Aos 13 anos ela começou a frequentar os clubes do West End de Londres e, quando o lendário programa de televisão ao vivo “Ready Steady Go!” começou, no final de 1963, ela se tornou uma dançarina regular nele. Os pais dela muitas vezes vasculhavam os clubes e a arrastavam de volta para casa. Se chegasse tarde, apanhava. “Quando saía, podia ser eu mesma. Aliás, nos clubes eu era encorajada a ser eu mesma e a me divertir. (...) Quando a música diz ‘something was denied’, esse algo sou eu. Eu não podia ser eu. Eu estava procurando diversão e carinho. Minha mãe não era nada carinhosa. Ela nunca me beijou”, disse.

Em 4 de outubro de 1963, Melanie ganhou um concurso de mímica no “Ready”. Por coincidência, era a primeira vez que os Beatles estavam no programa, e ela recebeu o prêmio das mãos de Paul McCartney. Cada um dos Beatles deu a ela uma mensagem autografada. “Passei o dia nos estúdios ensaiando, então estive perto dos Beatles a maior parte do tempo. Paul não estava a fim de muito papo, e John parecia distante, mas passei um tempo conversando com George e Ringo”, ela conta.

Enquanto dava um passeio perto da Paddington Station ela viu seu rosto estampado na primeira página de um jornal vespertino. “Voltei imediatamente para o apartamento e coloquei óculos escuros e um chapéu. A partir daquele momento, vivi com pavor de ser encontrada. Eles conseguiram me achar depois de uns dez dias, porque acho que deixei escapar onde meu namorado trabalhava. Falaram com o chefe dele, que me persuadiu a ligar para eles. Quando eles ligram para ir me ver, me enfiaram na parte de trás do carro e me levaram para casa. (...) Se eu fosse escolher minha vida de novo, não escolheria fazer tudo igual. O que eu fiz foi muito perigoso, mas tive sorte. Acho que é bom ser imortalizada em uma música, mas teria sido ainda melhor se tivesse sido por ter feito alguma coisa, em vez de por ter fugido de casa”, ela comenta.

O disco, com esta música ficou ainda mais contextualizado!

Paul a compôs quase que totalmente; John ajudou-o em algumas coisas. Nos vocais, somente os dois, também, e com Mike Leander na produção: George Martin não pode produzi-la no dia em que Paul queria e, pra variar, estava com pressa, escalando Leander, o que deixou Martin muito magoado, durante anos.


BEING FOR THE BENEFIT OF MR. KITE!
Gravação: dias 17 e 20 de fevereiro; finalizada do dia 28 a 31 de março de 1967.

Em janeiro de 1967, os Beatles foram ao Knole Park, perto de Sevenoaks, em Kent, fazer um filme promocional de “Strawberry Fields”. “Havia um antiquário perto do hotel onde estávamos”, conta Tony Bramwell, ex-funcionário da Apple. “John e eu fomos passear, ele viu um cartaz de circo vitoriano emoldurado e o comprou.”.

John começou a escrever uma música usando as palavras do cartaz, que estava em sua sala de música, e Pete Shotton o viu apertando os olhos na direção do texto enquanto fazia a melodia ao piano. John mudou alguns fatos para encaixar na música. No cartaz, o Sr. Henderson  se oferecia para desafiar o mundo, não o Sr. Kite: os Henderson não tinham saído da Pablo Fanque’s Fair, Kite é que tinha saído do Well’s Circus. Para rimar com “don’t be late”, John mudou eventos de Rochdale para Bishopsgate e para rimar com “will all be there”, ele transformou o circo em feira (fair). O cavalo original se chamava Zanthus, em vez de Henry.

Para John, Pablo Fanque, o sr. Kite e os Henderson não eram nada além de nomes coloridos em um cartaz, mas os registros revelam que, 150 anos antes, eram grandes astros no mundo do circo. O sr. Kite era William Kite, filho de um dono de circo, James Kite, e um artista completo. Em 1810 ele formou o Kite’s Pavillon Circus e trinta anos depois estava com Well’s Circus. Acredita-se que tenha trabalhado no circo de Pablo Fanque de 1843 a 1845.

Pablo Fanque era um artista de muitos talentos que se tornou o primeiro negro dono de circo na Inglaterra. Seu verdadeiro nome era William Darby e ele nasceu em Norwich, em 1796. Passou a se chamar Pablo Fanque na década de 1830.

Os Henderson eram John (equilibrista, adestrador, artista do trampolin e palhacço) e sua esposa Agnes, filha do dono de circo Henry Hengler. Eles viajaram por toda a Europa durante os anos 1840 e 1850. As cabriolas que o sr. Henderson realizava no chão duro eram cambalhotas. “Jarreteiras” eram faixas seguradas por duas pessoas, e “trampolim” era, naqueles tempos, um trampolim de madeira, não uma cama elástica.

Na época, John considerou “Being” uma música descartável, e disse a Hunter Davies: “Eu estava só seguindo meus impulsos porque precisávamos de uma música nova para Sgt. Pepper naquele momento”. Em 1980, ele reviu radicalmente sua opinião e disse a David Sheff, que o entrevistou para a “Playboy”: “É tão cosmicamente bonito... A canção é pura, como uma pintura, uma aquarela pura”.
















Lado “B”

WITHIN YOU WITHOUT YOU
Gravação: dias 15 e22 de março; finalizada nos dias 3 e 4 de abril de 1967.

Única música de George que entrou no disco, já que ele havia composto “Only a Nothern Song” para Pepper, dentro da ideia inicial das músicas do norte da Inglaterra, mas John e Paul vetaram. Só ele participa da gravação, cantando e tocando cítara, com outros músicos indianos tocando os demais instrumentos daquele país.

É o resultado de uma conversa, numa noite típica dos anos 1960: muita maconha rolando em meio a incenso queimando. Depois do jantar, na casa de Klaus Woormann, que estava morando em Londres com Christine Hargreaves, atriz de “Coronation Street”. Tony King e Pattie Harrison também estavam presentes. King, que depois trabalharia na Apple, conhecia os Beatles desde sua chegada a Londres, em 1963. Ele recorda: “Klaus tinha um harmônio de pedal, e George entrou na sala ao lado e começou a mexer nele. Saíram uns grunhidos horríveis, e, até o fim da noite, ele estava começando a cantar fragmentos para nós. É interessante que a gravação final de “Within” tenha tido o mesmo grunhido que eu ouvi no harmônio, porque John uma vez me disse que o instrumento em que você compõe uma música determina o som da música. Uma composição ao piano soa totalmente diferente de uma feita ao violão”.

“Quando conheci George, em 1963, ele era o senhor Diversão, passava as noites todas na rua. Então, de repente, ele descobriu o LSD e a religião indiana e ficou muito sério. Os fins de semana divertidos, em que comíamos carne e torta de fígado e ficávamos sentados rindo, transformaram-se em fins de semana bem sérios, com todo mundo eufórico falando sobre o significado do universo”.

Isso nos dá a ideia de como a música diz: o perceber  que somos essencialmente um só, abrindo mão, cada qual, do seu ego, e diminuindo distância que temos, uns dos outros.

Nenhum dos Beatles estavam presentes quando “Within” foi gravada. George e Neil Aspinall tocavam tamburas enquanto músicos de estúdio tocavam diversos instrumentos, incluindo dilruba, tabla, violino e violoncelo. “Não foi difícil organizar os músicos indianos para a gravação”, lembra George Martin. “Difícil foi escrever uma partitura para violoncelos e violinos, de modo que os músicos ingleses conseguissem tocar com os indianos. O tocador de dilruba, por exemplo, estava fazendo todo tipo de movimento, então tive de orquestrar isso para as cordas e instruir os músicos a seguirem-no”.


WHEN I’M SIXTY FOUR
Gravação: dias 6 e 8; finalizada nos dias 20 e 21 de dezembro de 1966.

Paul compôs esta canção em Forthlin Road, em Liverpool, aos 15 anos (foi pouco depois de conhecer John, pela época). Ele estava tocando uma versão dela em shows, quando o amplificador quebrou.

Trata-se de um pastiche dos anos 1920/30, que Paul desempoeirou para, novamente, trazê-la para a era psicodélica, o que muito tinha a ver. Apesar de ter seu pai em mente, quando a compôs, foi pura coincidência que ele tivesse 64 anos, no ano em que saiu no disco.

Nesta, os clarinetes foram gravados por músicos contratados.

George Martin colocou as duas, em sequência, no Lado B, porque sempre achou que ambas eram as músicas “deslocadas”, isto é, estavam fora do contexto do disco. Muitos críticos também defendem que a ideia de um disco conceitual foi embora, na medida em que ambas foram incluídas nele, levando por terra, tanto a ideia das “músicas do norte”, quanto a ideia da “banda do clube dos corações solitários do sargento Pimenta”.

Eu considero ambas contextualizadas, com o momento e com o disco. Talvez, se fosse possível, incluir “Only a Nothern Song”, também, e tirar a “reprise”... mas... o disco é perfeito, do jeito que foi feito.


LOVELY RITA!
Gravação: dias 23 e 24 de fevereiro; e nos dias 7 e 21 de março de 1967.

Outra composição de Paul, homenageando as controladoras de parquímetros.

Um amigo estava visitando Paul e, ao ver uma guarda de trânsito, uma inovação inglesa na época, comentou: “Estou vendo que vocês tem policiais femininas no trânsito aqui hoje em dia”. Paul ficou intrigado com a aliteração da expressão “meter maid” e começou a fazer experiências ao piano na casa de seu pai. “Achei ótimo. Tem de ser ‘Rita meter maid’ e depois ‘lovely Rita meter maid’. Eu estava pensando que devia ser uma canção de ódio... mas depois pensei que seria melhor amá-la”. Daí veio a ideia para uma música sobre um trabalhador tímido que, ao receber uma multa por estacionamento irregular, seduz a policial de trânsito em uma tentativa de se livrar da multa. “Fiquei imaginando que tipo de pessoa eu seria para me apaixonar pela policial de trânsito”, Paul comentou.

Alguns anos depois, uma policial de trânsito chamada Meta Davies, em Londres, declarou ter inspirado a música. Não que ela tivesse sido seduzida por um Bealte, mas, em 1967, ela autuou um certo Paul McCartney que teria perguntado sobre o seu nome incomum: “O carro dele estava estacionado em um parquímetro com o tempo expirado. Tive de emitir uma multa de dez xelins na época. Eu tinha acabado de coloca-la no para brisa quando Paul apareceu. Ele olhou para a multa e leu minha assinatura, que era por extenso porque havia outra M. Davies na mesma unidade. Quando eu estava indo embora, ele virou para mim e perguntou ‘seu nome é Meta mesmo?’. Eu disse que sim. Ele disse ‘seria um bom nome de música. Você se importa se eu usá-lo?’. Foi isso. Ele foi embora”, diz Meta.

Pode ser que Paul já tivesse escrito “Lovely Rita” e estivesse galanteando Meta, mesmo que ela fosse 22 anos mais velha que ele e mãe de uma adolescente. “Nunca fui fã dos Beatles”, ela admite. “Mas era impossível não ouvir a música deles. A minha família costumava esperar fora do Abbey Road Studios para vê-los”.

George Martin toca o piano Honky Tonk, para “dar uma força na harmonia.


GOOD MORNING GOOD MORNING
Gravação: dias 8 e 16 de fevereiro; e dias 13, 28 e 29 de março de 1967.

John a compôs sob inspiração do comercial de sucrilhos Kellog’s.
É que John ficava muito em casa, nesta época, lendo jornais e assistindo TV. A vida suburbana e doméstica estava na ordem do dia, para ele. Por isso Paul “dominou” o disco, como eu já disse nas outras publicações.

Era um resumo de sua situação, isto é, a admissão de que também ele não tinha mais o que dizer. O resultado de uma vida indolente, com muitas drogas (principalmente LSD), um casamento frio (já estava com a cuca na outra) e dias medidos por refeições, pelas horas de sono (já tinha virado notívago, como os outros três) e por programas de televisão como “Meet the Wife”. “Quando ele estava em casa, passava muito tempo deitado na cama com um bloco de anotações”, lembra Cynthia. “Quando se levantava, sentava ao piano ou ia de um cômodo ao outro ouvindo música, abobalhado com a televisão e lendo jornais. Ele basicamente estava se desligando de tudo o que estava acontecendo. Estava pensando sobre as coisas. As coisas com que ele estava envolvido fora  de casa eram bastante dinâmicas”.
“Walk by the old school”, por exemplo, era uma referência ao ato de levar Julian para heath House e é provável que a pessoa que ele esperava que “turn upa t a show” fosse Yoko Ono, que ele tinha conhecido em novembro de 1966. O “show” seria, então, uma exposição de arte, não uma apresentação.

Paul faz os solos de guitarra. A banda “Sound Incorporated” gravou os saxofones e trombones e os sons de animais foram tirados de fitas da EMI.


SGT. PEPPER’S LONELY HEARTS CLUB BAND (Reprise)
Gravação: dia 1 de abril de 1967.

Como a primeira música, que introduz o ouvinte ao disco, esta estabelece o anúncio do final do show, isto é, espécie de encerramento do concerto da “Banda do Clube de Corações Solitários do Sargento Pimenta”.


A DAY IN THE LIFE
Gravação: dia 21 de abril de 1967.

John a compôs sob inspiração dos buracos de Lancashire. Seu título provisório era “In The Life Of…”. Uma orquestra com 40 músicos de estúdio surge, dando um clima de aflição que toma conta da canção. Um despertador acionado por Mal Evans interrompe a música e Paul surge com uma nova música, no meio dela, até que John aparece novamente e a orquestra encerra a canção. O último acorde, que dura quase um minuto, é tocado em um piano a 8 mãos. Em seguida, surge a famosa nota em alta frequência, que só cães conseguem ouvir. Após o final da faixa, uma gravação ao contrário, contendo conversas e risos, fica sendo repetida no último sulco do vinil, inspiração de Paul, como uma alusão aos toca discos da época, sem mecanismo de retorno automático do braço, proporcionando “tics tics” ininterruptos, barulhos da agulha ao chegar no final do lado do disco e encostar no selo, até que alguém se levante e retorne o braço para a posição de descanso.

Gerou controvérsias, para variar. Muitos na época acreditavam que os Beatles gravavam coisas ocultas em seus discos, e que, ao tocá-los de trás para frente, essas mensagens podiam ser ouvidas, o que levou Lennon a dizer o seguinte, na época: “Estou cansado de ouvir esse blá, blá, blá, sobre Sgt. Pepper, do tipo: ‘plante uma bananeira, ouça o disco de trás para frente que você descobrirá seus significados mais profundos’...”.

A canção de John tinha surgido de sua interminável leitura de jornais. O s “4 mil buracos em Blackburn Lancashire” foram tirados da coluna “Far And Near” de 17 de janeiro de 1967 no “Daily Mail”, que falava de uma pesquisa da Blackburn City Council sobre buracos na rua que mostrava que havia 1/26 buraco para cada morador da cidade. Quando John precisou de uma rima para “small” parar terminar a frase “now they know hw many holes it takes to fill...”, seu antigo amigo de escola Terry Doran sugeriu “the Albert Hall”.

O homem que “blew his mind out in a car” era Tara Browne, um amigo irlandês dos Beatles e homem famoso da alta sociedade que morreu em um acidente de carro em 18 de dezembro de 1966. “Eu não estava copiando o acidente”, John disse a Hunter Davies. “Tara não arrebentou a cabeça. Mas pensei nisso quando estava escrevendo o verso”. Os detalhes do acidente na música – não ver o farol e uma multidão se formando no local – foram inventados. Paul, que colaborou com versos nesta parte da música, na época não sabia que John tinha Tara em mente. Ele achava que estava escrevendo sobre um “político drogado”.

Paul estava com Browne quando tomou LSD pela primeira vez, em 1966.

A canção inacabada de Paul, uma composição leve e alegre sobre sair da cama e ir para a escola, foi encaixada entre a segunda e a terceira estrofes da música de John. "Era uma canção apenas lembrando como era correr pela rua para pegar o ônibus da escola, fumar um cigarro e ir para a aula... era uma reflexão sobre os meus tempos de escola. Eu fumava um Woodbine (cigarro inglês barato e sem filtro) a aí alguém falava, e eu começava a sonhar”.

As referências a fumar um cigarro, sonhos e “turn nos” significou que a música foi banida do rádio em muitos países, inclusive na Inglaterra. Houve até quem estivesse convencido de que os buracos em Blackburn, assim como os buracos que Paul estava ansioso por consertar, eram os de seringas de um usurário de heroína.

Em 1968, Paul admitiu que “A Day in the Life” era o que chamava de “canção para deixar ligado”. “Era a única no álbum escrita como uma provocação deliberdada”, disse. “Mas o que nós queremos é deixar você ligado na verdade, não na maconha.”. George Marin comenta: “Havia uma referência à maconha ela, mas ‘Fixing a Hole’ não era sobre heroína e ‘Lucy in the Sky’ não era sobre LSD. Na época, eu tinha uma forte suspeita de que ‘went upstairs and had a smoke’ era uma referência às drogas. Eles costumavam desaparecer e dar um trago, mas nunca fizeram na minha frente. Sempre iam ao bar, e Mal Evans costumava ficar de guarda”.



Bem, para mim, é a melhor canção de todos os tempos e fecha, à altura e com estilo, o melhor disco de todos tempos. Lisérgica, etérea, com um vocal de arrepiar quantas e quantas vezes eu já a ouvi, e quantas e quantas vezes irei ouvi-la, hei de arrepiar-me e, claro, emocionar-me... Simplesmente perfeita.



Não importa como você irá ouvi-la; quando irá ouvi-la; onde irá ouvi-la: ela sempre há de ser perfeita.



Sgt. Pepper’s é imprescindível em qualquer prateleira onde se tenha discos de rock. É quase que obrigatório. Delimita, traça as fronteiras de tudo o que veio depois dele, dentro do pop e do rock. É impossível de ouvir uma ou outra música isoladamente. Nisso, o objetivo inicial, de se criar um disco homônimo, ele se consagra: uma música está ligada à outra, inexoravelmente. Não por ideia, conceito. Mas pela força que o disco traz, já há 50 anos. Meio século. Esta força faz-nos relembrar do o quanto os Beatles foram importantes, para o séc. XX e para as gerações futuras.

Um dos momentos mais criativos da História da humanidade teve um de seus dignos representantes. Os anos 1960 jamais voltarão (sua segunda metade, para ser mais exato e honesto). Andar o relógio para trás, não dá. Ainda que dê para ouvir o disco de trás para 
frente. Mas um de seus representantes, um símbolo a mais daquela época ainda resiste. Um dia a mais na eternidade em que o planeta pensou que ele poderia viver em paz e amor. Pelo menos parte dele. Boa parte. “Beautiful people”, como eles diziam. E nós nos convencemos.

Muitos já desencarnaram; outros, continuam por aí; Alguns, nunca mais foram os mesmos; um ou outro, perdeu-se; poucos sobreviveram.

Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Vida longa. Uma das bases do rock progressivo. Vida longa...

Até 1 de junho, quinta-feira... “It’s fifty years ago today!!!...”




Gentilezas e pesquisas:
Steve Tuner, in "The Bealtes - A história por trás de todas as canções".
Hunter Davies, in "The Beatles - A vida dos Beatles" (a única biografia autorizada)
(ambos presentes de minha amada esposa!)
Cynthia Lennon, in "John".









domingo, 21 de maio de 2017

A CAPA MAIS FAMOSA DA HISTÓRIA, DO MAIOR DISCO DA HISTÓRIA, DA MAIOR BANDA DA HISTÓRIA!!!!

Sgt. Peppers: 50 anos!!!

Boa tarde,

Hoje vamos falar sobre a capa de Sgt. Peppers, que faz 50 anos no próximo dia 1º de junho.



Um disco que estava sendo super produzido, com tudo o que se imaginava fazer som e barulho, com letras atuais (vamos falar delas, semana que vem) e que entrou para a história merecia uma capa igualmente marcante. Para sempre.






De início, vale ressaltar que é a primeira capa de disco da história que traz as letras das músicas que ali contém. E, claro, forma e fundo teriam que estar presentes neste disco, cujo projeto inicial era produzir um disco homônimo, conceitual – quando as músicas e os encartes (de dentro, a capa e a contracapa) tem relação entre si, isto é, tem-se um a ideia e a partir dela todo o disco é desenvolvido em cima dela.

Este conceito seria “as canções do norte (da Inglaterra)”, nos dizeres de Paul. Quando Revolver ficou para trás e deu as bases para Pepper, os Beatles estavam mais propensos a escrever e compor coisas que remetessem às questões de suas infâncias. Strawberry Fields e Penny Lane, as duas primeiras canções compostas para o disco atingem esse objetivo. Esta ideia de “infância”, sonhos surreais, etc., guardam relação com o psicodelismo – que preconizava, nas viagens de LSD esta volta à infância e seus sonhos. Daí a questão das canções do norte da Inglaterra, já que Liverpool fica geograficamente por lá e, tanto Londres como o sul da Inglaterra tem costumes e linguajares, sotaques diferentes do norte.






Mas essa ideia de unidade caiu por terra, porque Paul, o grande mentor do disco, não conseguiu casar isso com a questão do “Clube da Banda dos Corações Solitários do Sargento Pimenta”, isto é, a fuga da fama e do sucesso – “Vamos deixar de ser nós mesmos”, disse Paul - escondendo a banda por detrás de uma figura fictícia... seus alter egos...  

Bem, deixemos de lado um pouco isso porque falaremos na próxima blogagem, sobre as músicas e vamos falar sobre a capa mais famosa da história.






A ideia da capa surgiu de Paul – pra variar, depois que ele deu o título do disco (inspirado nos nomes das bandas e das músicas da época, como Quicksilver Massager Service, Jefferson Airplane, Big Brother and the Holding Company etc). Robert Fraser, seu amigo, forneceu-lhe algumas ideias, além de indicar as pessoas certas que estariam nos bastidores para a produção da capa: Peter Blake e sua esposa, Jann Haworth, e Michael Cooper. 


Paul desenhou em um pedaço de papel uma multidão em uma praça para assistirem Sgt. Pepper e sua banda receberem do prefeito um troféu. 


Foi com essa ideia que ele procurou Fraser e que o levou à Blake, um dos artistas fundadores do movimento Pop Art. Peter então fez o seu desenho, mudando ligeiramente o conceito inicial, que iria mudar mais até se tornar a capa atual. Nessa primeira reunião entre Blake, Fraser e McCartney, deu-se a ideia da banda escolher a galeria de pessoas a serem representadas na capa. Paul então levou a proposta aos demais Beatles, sugerindo que todos relacionassem nomes de pessoas que admiram e que gostariam de ver na capa.









Então, a concepção da capa ficou com Blake e Haworth; a direção de arte com Fraser e a fotografia com Michael Cooper.
ORIGEM DA IDEIA DE BLAKE
Blake teve inspiração na Idade Média, séc. XVI, na obra O Enterro do Conde de Orgaz, de autoria do pintor, escultor e arquiteto grego Doménikos Theotokópoulos. Pintada em 1586, a obra foi uma encomenda de Dom Andrés Núñez de Madrid em homenagem ao Senhor de Orgaz, Gonzalo Ruiz de Toledo, um dos maiores benfeitores da paróquia de Santo Tomé, na Espanha. O quadro foi concebido para ficar na capela onde se localiza o túmulo do Senhor de Orgaz e até hoje permanece no mesmo local – a capela de Nossa Senhora da Concepção, na Igreja de Santo Tomé, em Toledo, na Espanha. 


Não se pode provar que Blake se inspirou conscientemente em O Enterro do Conde de Orgaz para conceber a capa de Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band, mas é correto supor que, ainda que inconscientemente, Peter Blake tenha encontrado uma referência na obra de El Greco, já que a pintura era largamente conhecida em todo o mundo em 1967. 


De certa forma, ambas composições tem o mesmo conceito: uma cena central sendo observada por personalidades. Na obra de El Greco estão presentes personagens como Santo Estevão, Santo Agostinho, monges e sacerdotes, dispostos em fileiras, uns sobrepondo os outros, exatamente da mesma maneira que Blake faria quatro séculos depois. Como curiosidade, vale citar que O Enterro do Conde de Orgaz sofreu poucos reparos ao longo dos séculos. Em 1672 a obra teve a sua primeira limpeza e em 1975 sofreu uma grande restauração. 









O local em que está localizada é aberto para visitação, então, se você estiver dando uma volta por Toledo, vale a pena dar uma passada pela Igreja de Santo Tomé e conferir, ao vivo, uma das pinturas mais famosas da história e que serviu, mesmo de maneira inconsciente, como inspiração para uma das imagens mais emblemáticas do século XX.

Falando em “conferir ao vivo” a ideia da imagem associada à música – presente na capa – veio, claro, da nascente psicodelia londrina, da qual já falamos por aqui. Paul, nesta ideia, vai um pouco mais longe, agregando amplos setores da sociedade – música, cinema, literatura, filosofia, política, amigos -, dando-nos a ideia de que todos fossem levados para dentro do universo do disco, junto com a banda do clube... talvez seja a capa mais democrática da história!
SESSÃO DE FOTOS
“Tivemos uma reunião inicial com todos os quatro Beatles, Frase e Brian Epstein. A maior parte da conversa foi feita com Paul, em sua casa e com John, às vezes”, relata Blake.
Então, em 30 de março de 1967 todos foram ao estúdio de Cooper, na 4 Chelsea Manor Studios, 1-11 Flood Street. Cooper montou seu estúdio ali em julho de 1966. Os Beatles chegaram no fim da tarde, às 18h. O projeto de Peter Blake e sua esposa Jann Haworth tinha sido montado no estúdio durante os últimos oito dias. Cooper também produziu a contracapa e os encartes internos.







Depois da sessão de fotos, os Beatles voltaram para o estúdio Abbey Road, às 23h (sim, porque, como já dissemos, eles viraram notívagos nesse tempo) e ficaram gravando overdubs para a música With A Little Help From My Friends, onde gravaram a introdução “Billy Shears”, até às 7h30min da manhã do dia 31 de março.





Blake, Paul e Cooper.








Fraser, "quebrando a cabeça" no início dos trabalhos...

O trabalho de colagem deixaria a foto famosa mais tarde, já com todos os elementos.


QUEM É QUEM NA CAPA


Paul pegou a lista e os esboços de Peter Blake, que desenvolveu o conceito mais tarde. Outros nomes foram acrescentados e outros caíram no esquecimento. Jesus e Hitler estavam entre as escolhas de John Lennon, mas eles ficaram de fora da lista final. Gandhi, por sua vez, não foi permitido pela Sir Joseph Lockwood, o chefe da EMI, pois temia que eles tivessem problemas com a capa impressa na Índia, bem como Hitler, por razões óbvias...

O rosto do ator mexicano Germán Valdés “Tin Tan”(irmão do também consagrado ator Ramón Valdés, o Seu Madruga do seriado Chaves) aparecia na capa, mas ele não autorizou sua exibição na última hora, enviando em seu lugar uma árvore da vida de Metepec (planta tradicional mexicana) que aparece em um canto.

Algumas pessoas não dá pra ver, como Einstein, bloqueado pelo ombro de John e a atriz Bette Davis, atrás de George!

O ator Leo Gorcev condicionou o uso de sua imagem a um cachê de “apenas” 400 libras (uma fortuna, na época)... Tadinho... da parte de quem, mesmo?...

Outra que quase pagou mico foi a atriz e escritora Mae West: a princípio não gostou de ser associada à ideia do nome do disco; entretanto, mudou de ideia rapidinho, depois que os quatro escreveram-lhe cartas, implorando sua autorização..





Um pouco da sessão de fotos, da contracapa e do encarte



Foram 57 fotografias em papelão e 9 bonecos de cera, (tendo os Beatles à frente em seus indefectíveis uniformes coloridos, como que capitaneando a pequena multidão de notáveis).

Na época havia um boato de que Paul havia morrido em um acidente automobilístico e todo mundo achava que havia um sósia dele em Sgt. Pepper: essa foi a primeira “polêmcia” criada pela capa: uma mensagem oculta sobre sua na parte inferior parece haver uma tumba adornada com flores e um contrabaixo também feito de flores com apenas três cordas... Na verdade os Beatles andavam “sumidos”, mesmo, pelas razões que já colocamos neste blog...






Paul teve a deia, originariamente, da banda vestida com uniformes lembrando o Exército da Salvação. Mas os outro três não gostaram e acharam melhor confeccionar um uniforme próprio. Eles fdoram feitos na Burman’s, do alfaiate Maurice Burman, que normalmente fazia material militar para filmes épicos. O uniforme da banda de Sgt. Pepper é um somatório de vários estilos de uniformes ingleses em períodos diferentes da história, de forma – claro! - satirizada. Cada Beatle escolheu uma cor, optando sempre por cores fortes. A intenção era confrontar o raciocínio tradicional de que uma tropa tem que ser vestida igual, de uma só forma. Uma banda militar eduardiana, satirizada, transportada para a era psicodélica.


CONFIRA NA TABELA E NA LISTA ABAIXO!







01. Sri Yukteswar Giri (guru indiano)
02. 
Aleister Crowley (mágico)
03. Mae West (atriz)
04. Lenny Bruce (comediante)
05. Karlheinz Stockhausen (compositor)
06. William Claude Fields (ator)
07. Carl Gustav Jung (psicanalista)
08. Edgar Allen Poe (escritor)
09. Fred Astair (ator)
10. Richard Merkin (artista)
11. 
Desenho de uma garota (The Varga Girl)
12. Leo Gorcey (ator) (retirado da capa porque cobrou para usar sua imagem)
13. Huntz Hall (um dos Bowery Boys)
14. Simon Rodia (artista)
15. Bob Dylan (músico)
16. Aubrey Beardsley (ilustrador)
17. Sir Robert Peel (político)
18. Aldous Huxley (escritor)
19. 
Dylan Thomas (poeta)
20. Terry Southern (escritor)
21. Dion (di Mucci) (cantor)
22. Tony Curtis (ator)
23. Wallace Berman (artista)
24. Tommy Handley (comediante)
25. Marylin Monroe (atriz)
26. William Burroughs (cantor)
27. Sri Mahavatara Babji (guru indiano)
28. Stan Laurel (comediante)
29. Richard Lindner (artista)
30. Oliver Hardy (comediante)
31. Karl Marx (filósofo socialista)
32. 
Herbert George Wells (escritor)
33. Sri Paramahansa Yogananda (guru indiano)
34. Anônima (manequim de cabelereira)
35. Stuart Sutcliffe (Ex-integrante dos Beatles)
36. Anônima (manequim de cabelereira)
37. Max Miller (comediante)
38. 
The Petty Girl (do artista George Petty)
39. Marlon Brando (ator)
40. Tom Mix (ator)
41. Oscar Wilde (escritor)
42. Tyrone Power (ator)
43. Larry Bell (pintor)
44. Dr. David Livingstone (explorador)
45. Johnny Weismueller (ator)
46. Stephen Crane (escritor)
47. 
Issy Bonn (comediante)
48. George Bernard Shaw (escritor) 
49. Horace Clifford Westermann (escultor)
50. Albert Stubbins (jogador de futebol)
51. 
Sri Lahiri Mahasaya (guru)
52. Lewis Carroll (escritor)
53. Thomas Edward Lawrence (Lawrence da Arábia - escritor)
54. Sonny Listen (boxeador)
55. The Petty Girl (do artista George Petty)
56. 
Estátua de cera de George Harrison
57. Estátua de cera de John Lennon
58. Shirley Temple (atriz infantil)
59. Estátua de cera de Ringo Starr
60. Estátua de cera de Paul McCartney
61. Albert Einstein (físico)
62. John Lennon (segurando uma trompa)
63. Ringo Starr (segurando uma trombeta)
64. Paul McCartney
65. George Harrison (segurando uma flauta)
66. Bobby Breen (cantor)
67. Marlene Dietrich (atriz)
68. Ghandi (líder indiano, retirado da capa a pedido da EMI)
69. Legionário da ordem dos búfalos
70. Diana Dors (atriz)
71. Shirley Temple (atriz infantil)
72. Figura de Jann Haworth
73. Boneca da atriz infantil Shirley Temple
74. Castiçal mexicano
75. Aparelho de televisão
76. Figura de pedra de uma menina
77. Figura de pedra
78. Estátua (que era da casa de John Lennon)
79. Troféu
80. Boneca indiana
81. Capa da bateria do Sgt. Peppers (projetada por Joe Ephgrave)
82. Hooka (para fumar tabaco)
83. Cobra de veludo
84. Figura de pedra japonesa
85. Figura de pedra da Branca de Neve
86. Gnomo de Jardim
87. Tuba 




QUEM ESCOLHEU AS FIGURAS?
John: algumas das escolhas de John foram apenas para provocar, mesmo. Entre elas, podemos citar Adolf Hitler e o Marquês de Sade, os dois últimos jamais chegando à arte final. Brigitte Bardot, Lord Buckley, James Joyce e Friedrich Nietzsche também acabariam de fora. Os homenageados presentes são Lenny Bruce, Aleister Crowley, Dylan Thomas, Oscar Wilde, Edgar Allan Poe e Lewis Carroll.

George: a sua lista só incluiu gurus indianos: Sri Mahavatara Babaji, Sri Yukteswar Giri, Sri Lahiri Mahasaya e Paramahansa Yogananda.

Ringo: Ringo não se interessou em escolher ninguém para o mural, porém apoiou as escolhas feitas pelos demais, refletindo sua posição e seu estado, na banda, à época, que já comentamos por aqui.

Paul: embora nem todos de sua lista de homenageados acabassem na arte final, Paul relacionou suas opções como sendo William Burroughs, Robert Pell, Karlheinz Stockhausen, Aldous Hexley, H.G. Wells, Albert Einstein, Carl Jung, Aubrey Beardsley, Alfred Jarry, Tom Mix, Johnny Weissmuller, Rene Magritte, Tyrone Power, Karl Marx, Richmal Crompton, Dick Barton, Tommy Handley, Albert Stubbins e Fred Astaire.

Peter Blake e Jane Haworth: o casal de artistas contribuiu com a presença de W.C. Fields, Tony Curtis, Dion DiMucci, Bobby Breen, Shirley Temple, Sonny Liston, Johnny Weissmuller e H.C. Westerman.


Robert Fraser: Terry Southern, Wally Berman e Richard Lindner.

ENCARTE
O disco veio com um encarte para os fãs mergulharem na ideia do disco: uma folha de recortes de papelão criada por Blake e Haworth com um retrato em tamanho de postal de Sgt. Pepper baseado em uma estátua da casa de John que foi usada na capa principal, um bigode falso, dois conjuntos de insígnias de sargento, dois emblemas de lapela e um modelo para recortar dos Beatles em seus uniformes de cetim. Foi também uma sacada inovadora.


Outra ideia surgida foi incluir um envelope com diversos decalques autocolantes e tatuagens que colassem na pele com uma lambida. Elementos que remeteriam à infância, quando essas coisas eram dadas na compra de um chiclete ou revista em quadrinhos. Mas a gravadora EMI reclamou muito da despesa extra e da impraticabilidade de toda a ideia, de um disco já por demais caro, para época, para ser produzido.

É, sem sombra de dúvida, a capa mais famosa e parodiada da história do rock.

Fiquem com Deus... voltaremos, após, para falarmos das músicas, uma por uma.