quinta-feira, 15 de novembro de 2018

50 ANOS DE TROPICALISMO: DIVINO, MARAVILHOSO, BABE!!!

Boa tarde, 

Voltamos nesse dia da Proclamação da República – 15 de novembro – para falarmos de um tema apropriado: os 50 anos do Tropicalismo.

O movimento – Tropicalismo – foi uma forma de comportamento... Aff!!! Parece um antropólogo falando!!!

DIVINO, MARAVILHOSO!!! Beeem melhor, assim, Babe!!!

Vamos falar sobre a tropicália, ou aquilo que gosto de denominar como “contracultura brasileira”. Sim. A contracultura brasileira. Ou falaremos dos nossos mitos, já que tão em voga na boca de matilde... Estes sim, são mitos!!!!


Jorge Ben, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rita Lee, Gal Costa, Sérgio Dias Baptista e Arnaldo Baptista... Parte dos Tropicalistas, mas com o seu núcleo central: Gil, Caetano e Os Mutantes

Nossa história começa com o disco-manifesto: “Tropicália, ou Panis et Circenses”, lançado mais precisamente em julho de 1968.



Como vocês sabem, o Brasil vivia sob uma ditadura cívico-militar, desde 1964 e, como toda ditadura, havia censura no país, que só permitia vir a público aquilo que agradasse os ditadores de plantão.


Ao mesmo tempo, o Brasil, à época, vivia uma grande efervescência cultural e nas artes em geral, fortemente influenciada por todos os ventos que vinham do exterior e acabavam soprando por aqui. Um desses “ventos” foi, sem dúvida nenhuma, a contracultura.

Arrisco a dizer que o mundo realmente não seria o que é hoje não fossem a revolução cultural e comportamental dos anos 1960: seríamos exatamente os filhos do pós-guerra norte-americanos e ingleses (anos 1950), com todo o seu conservadorismo e reacionarismo.

Não que essas coisas estejam fora de moda: muito ao contrário. Basta vermos o resultado das eleições em nosso país este ano e as diversas manifestações que ocorreram por aqui nos últimos 4 ou 5 anos.

Caetano, Gal e Maria Betânia...

Enfim, os anos 1960 foram os que nos legaram
 muito, mas muito mais liberdade de expressão, sexual, comportamental, etc.

Parte deste legado devemos à contracultura, que pôs em xeque toda a construção (ocidental) de valores do pós-guerra dos anos 1950: a competitividade, o consumismo, os “valores tradicionais da família”, do trabalho, a submissão das mulheres perante os homens, os direitos civis dos negros, dos homossexuais, o modo “ocidental” de vida, isto é, o “New Deal”, ou o modo de vida norte-americano.

Tudo isso teve reflexo muito sentido em nós, do terceiro mundo. Principalmente nos países que viviam sob ditadura orientada, instaurada e alimentada pelos EUA. Sedimentamos, ali, o modo de vida norte-americano para os nossos destinos. Coloquem tudo isso dentro de caldeirão de uma situação internacional de guerra fria entre URSS e EUA e temos aí o contexto.

Tom Zé, um dos idealistas do movimento...

Então, este era o mundo nos anos 1960. Enquanto a roda de Aquário girava, o Brasil “girava para trás”.

É dentro desse caldo que surge o Tropicalismo, movimento de ruptura com esse contexto. É claro que ele tinha objetivos. É claro que era um movimento político – mas não político-partidário.

Irreverente, contestador, inovador, libertário, chique... absorveu a essência da contracultura, misturando-a com elementos estritamente nacionais: samba, bossa nova, rock, rumba, baião, bolero e uma nova atitude (política, por que não?) perante a ditadura vigente no país: cabelos cumpridos e roupas extravagantes, à semelhança da contracultura.

Caetano e Gil.

Sem dar um tiro, sem dar um tapa (e, aí fugindo da esquerda tradicional à época, que pegou em armas para lutar contra a ditadura), escrachou os ditadores de plantão e pôs em xeque, também, o nosso “modo de vida” à brasileira: a moral, os bons costumes, a questão do corpo, do sexo, comportamento, visual, vestuário... refletindo-os através da poesia “semi-non-sense” (sim, havia um quê de “non sense” à lá Lennon, mas eram pura sátira ao regime militar e o que se lhe aliava) e, principalmente, através da música.


Cartaz-lema, que deu origem à marginália, ou cultura marginal de Hélio Oiticica.


Hélio Oiticica frequentava a Mangueira e conhecia o mundo da marginalidade. Dentro de uma lógica de transgressão de valores burgueses, tinha certo fascínio pelos tipos marginais e malandros. "Cara de Cavalo", acusado de matar um policial, foi uma das primeiras vítimas do esquadrão da morte carioca, em outubro de 1964. 

Esta obra é marcante no movimento chamado de marginália, ou cultura marginal, que passou a fazer parte do debate cultural brasileiro, a partir do final de 1968, durando até meados da década de setenta. O artista foi acusado de fazer apologia ao crime. 

A marginalidade é considerada uma forma de transgressão dos valores conservadores e burgueses, identificados com o regime militar, aliado à idealização do mundo do crime, como mundo produzido pelas contradições da sociedade.

Ser marginal é viver à margem da sociedade, não se aliando com ela, vivendo no sistema e não para o sistema, o que não significa que o ser seja bandido. Somente ganhou essa conotação por conta do movimento e, claro, pela ditadura ter estampado essa expressão a todos aqueles que ela considerava como bandidos: desempregados (não podia andar na rua sem carteira de trabalho assinada), gente com tatuagem, maconheiros, roqueiros, punks, etc., e, inclusive, os tropicalistas. Para o regime, todos eram marginais, assim como muita gente comum do povo achava e ainda acha até hoje.


Filme de Glauber Rocha que também influenciou grande parte da esquerda na época e os tropicalistas.

O movimento tropicalista, então, contrariou a tudo e a todos – dos tradicionalistas da bossa nova aos “roqueiros” da jovem guarda -, rompendo com todos, e, ao mesmo tempo, incorporando seus elementos mais essenciais: a brasilidade, porque, aberto, incorporador e inovador.
 
Tim Maia, que à época, foi fortemente influenciado pelos tropicalistas e vice-versa...
Os anos 1967 e 1968 foram os precursores do movimento, que começou com o 3º Festival de Música Popular da antiga TV Record, em 1967, com o encontro de Gilberto Gil, Caetano Veloso e Os Mutantes. Foi dali que se teve a ideia de fundir estilos e estabelecer uma nova estética e comportamentos que redundaram no movimento.

Torquato Neto, um dos idealizadores do Tropicalismo.

De um lado havia a MPB mais tradicionalista, surgida principalmente através do pós-bossa nova, engajada, que, por força do contexto mesmo, aliava-se mais à esquerda tradicional; do outro, a jovem guarda que, se não tinha definição ideológica clara, enquanto “movimento” (e, definir-se ideologicamente contava muito, à época), com certeza seus seguidores eram claramente influenciados pela ditadura e pelo contexto e modo de vida vigente. Basta lembrarmos do que já lhes disse neste blog, a respeito dos Beatles, e de como eles (e só eles – ninguém mais, a despeito de todo o contexto e a cena musical lá fora) influenciaram a juventude da época, por aqui, através do “iê, iê, iê”... e de como esse tal de “iê, iê, iê” ficou no imaginário do brasileiro até hoje (que, em verdade, é “yeah”, “yeah”, “yeah”).

Um pouco da estética tropicalista em Caetano..

É claro que eles, por lá, tinham problemas com a contracultura e não deixariam os seus “satélites” serem influenciados, isto é, o pensamento ter liberdade por aqui.
Para a ditadura era importante a juventude continuar no seu “iê, iê, iê”, e não em “lay down all thought, surrender to the void” (“abandone cada pensamento, entregue-se ao vazio”) e “when ignorance and haste may mourn the dead” (“quando a ignorância e a pressa podem velar os mortos”), ou “I’d love to turn you on” (“Eu gostaria de te deixar chapado”).



Reparem a influência do psicodelismo no tropicalismo... Caetano e Os Mutantes... Lembra a capa de Piper at the gates of dawn, do Pink Floyd, não é mesmo?

O reacionarismo brasileiro e sua “raison d’être” tem suas raízes bem lá trás, lá pelo descobrimento do país, com as capitanias hereditárias, pelos movimentos (burgueses) pela independência e abolição da escravatura (não estou criticando, somente constatando um fato histórico), bem como pela proclamação da República (também de cunho burguês, fortemente influenciado pela Revolução Francesa), com o movimento Integralista, dos anos 1920/30, mas sem sombra de dúvida, essas raízes se fortaleceram e cresceram durante os anos 1960, alimentadas pela cultura dominante dos EUA e “deram as caras”, com a revolução tecnológica dos anos 1990, através da “internet” e suas redes sociais, consubstanciadas pelos movimentos ultranacionalistas, xenófobos e de extrema direita da Europa, e mais recentemente, nos EUA. 

Os Mutantes e sua música "Não vá se perder por aí", que era uma expressão da época, dita pelos pais e mais velhos aos jovens... Claro que se trata de uma sátira dos Mutantes....


O Tropicalismo não se aliava a ninguém; era um movimento de ruptura e irreverente por excelência, tal como a contracultura: sincrético, trouxe rompimento com dicotomias reinantes: pop versus folclore; alta cultura versus cultura de massa.

Usou e abusou (outra expressão criada à época) da televisão, assim como o fazem hoje da “internet”, levando a excentricidade às massas, com um quê divino e maravilhoso de psicodelia, rock e guitarra elétrica (estes abominados pelos puristas da MPB tradicional à esquerda e pelos reacionários do poder e de plantão de sempre).


Os  Mutantes, já na fase pós-tropicália, ou a chamada fase progressiva da banda.

O movimento acabou com a prisão e exílio de Gilberto Gil e Caetano Veloso, em dezembro de 1968, com a repressão fazendo o que dela se esperava: apagar o inapagável. A cultura nacional gravava para sempre a tropicália em suas raízes e expandia a descoberta para o mundo todo a brasilidade e seus trópicos.

DVD documentário lançado sobre o movimento, obrigatório para quem quer entender um pouco do que foi o Tropicalismo. Em baixo, assistam ao documentário!


Como a censura e a ditadura não censuraram o disco e as músicas? Bem, esta é uma questão unicamente de letra e composição, que relatavam um quadro crítico e, ao mesmo tempo complexo do cotidiano do país, totalmente fora de qualquer alcance da sapiência e da esquizofrenia dos censores. Mais ou menos como alguns filhotes da ditadura tentam, nos dias de hoje, “desmoralizar” exposições, manifestações artísticas, obras literárias, etc., numa megalomaníaca escalada esquizofrênica tosca, sem cultura, sem estudo, sem caráter contra o que eles chamam de “petismo” ou coisa que o valha: iniciativas de patrulhamento ideológico (nazista) nas escolas públicas (a chamada “escola sem partido”... mas com o deles, claro!) é apenas um exemplo de como as coisas são cíclicas na história e de como ela se repete, sempre como tragédia... e farsa.

Por isso eu sou... SEMPRE, Tropicalismo.... SEMPRE!


Vou deixar aqui a letra de "Panis et Circenses", de Caetano Veloso:


Eu quis cantar


Minha canção iluminada de sol

Soltei os panos, sobre os mastros no ar
Soltei os tigres e os leões, nos quintais
Mas as pessoas na sala de jantar
São ocupadas em nascer e morrer

Mandei fazer
De puro aço, luminoso um punhal
Para matar o meu amor, e matei
Às cinco horas na Avenida Central
Mas as pessoas na sala de jantar
São ocupadas em nascer e morrer

Mandei plantar
Folhas de sonho no jardim do solar
As folhas sabem procurar pelo sol
E as raízes procurar, procurar
Mas as pessoas na sala de jantar
Essas pessoas da sala de jantar
São as pessoas da sala de jantar
Mas as pessoas na sala de jantar
São ocupadas em nascer e em morrer





O disco, para audição... Reparem na capa... Não lembra Sgt. Pepper's?


E "Babe", da Gal Costa... Ambas sintetizam um pouco o tropicalismo:



Você
Precisa saber da piscina
Da margarina
Da Carolina
Da gasolina
Você precisa saber de mim
Baby, baby
Eu sei que é assim
Baby, baby
Eu sei que é assim
Você
Precisa tomar um sorvete
Na lanchonete
Andar com a gente
Me ver de perto
Ouvir aquela canção do Roberto
Baby baby
Há quanto tempo
Baby baby
Há quanto tempo
Você
Precisa aprender inglês
Precisa aprender o que eu sei
E o que eu não sei mais
E o que eu não sei mais
Não sei
Comigo vai tudo azul
Contigo vai tudo em paz
Vivemos na melhor cidade
Da América do Sul
Da América do Sul
Da América do Sul
Você precisa
Você precisa
Você precisa
Não sei
Leia na minha camisa
Baby baby
I love you










DIVINO, MARAVILHOSO!!!!


Até a próxima, para falarmos dos 50 anos de lançamento do “álbum branco”, dos Beatles, lançado em 22 de novembro de 1968: o começo do fim.


Ah, essas pessoas da sala de jantar...






sexta-feira, 12 de outubro de 2018

DEMOCRACIA OU DITADURA: VOCÊ (AINDA) ESCOLHE.

Boa tarde a todos!


Voltamos nesta tarde de feriado para conversarmos um pouco sobre as eleições gerais que acontecem aqui no Brasil e, particularmente, sobre as opções que temos.

O Brasil, para quem me lê - e são muitos! - do exterior, tem pouca tradição democrática. Se contarmos os períodos de sua história onde houve liberdade democrática dá nos dedos das mãos!!!

Este período em que vivemos é, com certeza, o mais longo de nossa história. Desde 1985 o Brasil vive em Estado Democrático de Direito, onde as garantias dadas por sua Constituição (de 1988) são preservadas: liberdade de expressão, etc.

Começo com esta pequena introdução e sem me alongar muito porque os livros estão aí e a "Internet" também e podem informar a vocês bem mais do que minha memória.

Mas tem um problema mal resolvido no nosso país e que sempre volta à tona. Sabemos que quando não resolvemos um problema, ele volta, até que o resolvamos. É mais ou menos assim, na vida particular de cada um, igualmente na vida coletiva.

Este problema - e que problemão! - é a DITADURA MILITAR, que esteve por entre nós de 1964 até 1985.

Trata-se do nosso passado que não se resolveu. Para quem me lê do exterior vou explicar: Há como um quê de clima nostálgico numa parte da população do Brasil, que clama pela volta daqueles valores ditatoriais, com a complacência da mídia e dos formadores de opinião, já que estes são formados por pessoas jovens e que não viveram um regime ditatorial e "querem pagar para ver", como dizemos aqui no Brasil.

Nenhum dos ditadores - TODOS ELES - no Brasil sofreu qualquer sanção internacional digna de nota por conta dos crimes contra a humanidade (e foram muitos, mas muitos crimes) cometidos pelo regime. Diferentemente dos nossos países irmãos - mais notadamente a Argentina e o Chile - aqui, ditador tem fama de "honesto" e "gente boa". São idolatrados por parte do povo (sim, aqueles que não viveram numa ditadura).

Por que lhes digo isso? Porque o que está em jogo, hoje, no Brasil, às vésperas do 2º turno das eleições presidenciais, é justamente isso: as liberdades democráticas, conquistadas às duras penas por muitos, mas muitos que derramaram o próprio sangue para que, por exemplo, eu pudesse hoje estar escrevendo a vocês e o outro projeto, aquele que lhes disse acima, isto é, a nostalgia.

Para vocês terem uma ideia, o clima no país, que sempre bradou para o mundo como o "país pacífico", ou "povo dócil", "simpático", "acolhedor", o clima é de ÓDIO. Digo o clima, mesmo, porque dá para sentirmos no ar o ódio que exala da turba ensandecida.

Sim, ÓDIO. E o mais difícil de combater de todos eles: Ódio de classe. Vou explicar: Tudo começou com a eleição de LULA, líder operário, que fez um governo muito bom, do ponto de vista social. Elegeu sua sucessora, Dilma Roussef, que deu continuidade e tentou aprofundar as mudanças sociais iniciadas por Lula.

Isso, evidentemente, gerou uma reação (de reacionário, mesmo) de parte da população que não suporta ver os pobres tendo a mesma oportunidade que os ricos. E muitos pobres não gostam que outro pobre possa ter a mesma oportunidade dos ricos, já que, como se sabe, muitos pobres projetam nos ricos aquilo que eles gostariam de ser e acabam por apoiando os ricos. É por isso que muitos analistas internacionais não entendem como se dão as eleições no Brasil. Os poderosos do país usam esses pobres como massa de manobra para manterem-se no poder do país. É a tal luta de classes, tão antiga como a história, mas que no Brasil ainda insiste em perdurar.

De resto, ódio às chamadas "minorias" (pobres, gays, índios, negros, mulheres) é consequência da causa ÓDIO DE CLASSE.

Com o acirramento da luta de classes (é um velho jargão... Alguns me entenderão, mas que serve como uma luva no Brasil), acirrou-se também o ódio contra essas "minorias" (pobres, negros e mulheres são maioria no Brasil) e um candidato encarnou esse desejo coletivo de ódio e avocou para si ser o porta voz, catalisador e canalizador desse ódio... Sim, é aquele que Roger Waters mostrou em seu show por aqui, na quarta-feira última, em nosso estádio (do nosso Palmeiras), e que anda aparecendo para vocês aí, no exterior.

Sim. Ele representa tudo isso. É verdade.

No Brasil, existe uma parcela da população extremamente conservadora e reacionária, fruto da nossa colonização e o modo com que ela se deu (capitanias hereditárias, etc.).

Traçar-lhes um perfil dessa parte da população não é difícil, para que todos vocês entendam: são extremamente religiosos (protestantes e católicos, não importa) e insuscetíveis de mudanças... Tem extrema dificuldade de convívio com o diferente (basta ver como são tratados os imigrantes - pobres - dos outros países vizinhos e do Haiti) e são tradicionalistas.

Houve um movimento, durante os anos 1930 no Brasil que se chamou INTEGRALISMO, fortemente influenciado pelo nazismo e pelo fascismo.

Essa geração de agora é herdeira desse movimento de extrema direita. Passa e perpassa de geração em geração.

Então, quando surge alguém que consegue aglutinar todo esse ódio, esse alguém desponta e chama a atenção - inclusive de vocês, aí no exterior... Não é coisa de latino-americano, não... É coisa GRAVE, mesmo, de Hitler , Mussolini e Hiroyto...

Então, o ódio é a grande "moda" do Brasil hoje. Disseminado a quatro cantos do país, correu-lhe como um rastilho de pólvora, como na Alemanha dos anos 1930... E, tal como na Alemanha, ganhou a simpatia de muitos... Todos sabem que Hitler subiu ao poder pelo voto democrático. Logo...

Explicado, então, a situação de nosso país, dá para vocês terem uma ideia mais aclarada de nosso momento... Talvez, no dia primeiro de janeiro do ano que vem eu não possa mais estar escrevendo-lhes...

É isso que está em jogo no Brasil: democracia X ditadura. E, por ironia do destino, será decidido no próximo dia 28 de outubro, por eleição democrática, o nosso destino... Não lhes digo "o nosso destino daqui a 4 anos", porque a democracia, no Brasil, corre sério risco, sim. Risco REAL.

Vou colocar um vídeo que vi hoje no "Facebook" de Arnaldo Antunes, ex integrante de uma banda de rock que fez muito sucesso nos anos 1980 aqui no Brasil, chamada TITÃS... Hoje ele não mais grava com a banda e participa de projetos artísticos com diferentes artistas.

Acabei vendo este vídeo através de outro Arnaldo - o Baptista - sim, Arnaldo Baptista, dos Mutantes...

Deem uma olhadela e, se possível, divulguem para o mundo todo...

Gostaria de estar falando com vocês - falando de Arnaldo Baptista - do Tropicalismo, que completa 50 anos este ano, mas a situação impõe essas letras de luta e de resistência. Tal como as de Arnaldo Antunes...



https://www.facebook.com/lu.ar.79/videos/2067756876613931/


Por um mundo mais generoso, para todos. Boa sorte, Brasil. Você vai precisar...
Que Deus nos proteja e nos guarde em Espírito.


Saudações Beatlemaníacas...












domingo, 2 de setembro de 2018

HEY JUDE/REVOLUTION: 50 ANOS!!!


Bom dia a todos!

Voltamos para conversarmos acerca dos 50 anos do desenho animado “Yellow Submarine”, completados agorinha, que estreou nos cinemas no mês de julho, mais precisamente no dia 17, no London Pavillon, em Londres (onde lá estive em 2014!!!).

Cartaz promocional da "nova" trilha sonora de Yellow Submarine, relançada em 1999, que recortei do jornal e enquadrei... Toda resmasterizada, privilegiando os vocais, e sem a trilha instrumental que George Martin fez para o filme, que vai do lado B da trilha original...

E, claro, também, pelas comemorações dos 50 anos do single de maior sucesso da carreira fonográfica dos Beatles: o compacto “Hey Jude/Revolution”, que fez aniversário nessa semana, no dia 30 de agosto.




Meu DVD do Yellow Submarine... Chiquérrimo!!!

Bem, estava conversando com minha esposa, nesta semana, justamente sobre esses dois lançamentos e de como estamos envelhecendo... E as coisas dos Beatles, também. E os anos 1960 estão cada vez mais ficando para trás...





Encartes e desenhos maravilhosos completam a caixinha onde o DVD vem embalado...

A primeira vez que eu assisti ao filme “Yellow Submarine” foi na “Sessão da Tarde”, da Globo (eca!), nas férias de julho de 1983, numa dessas raras vezes em que eu estava dentro de casa, num dia ensolarado. Provavelmente ou eu não tinha linha, ou não tinha quadrado, ou não tinha vento para estar empinando! E também era no começo da tarde, logo não tinha ninguém disponível para jogar bola!


A Premier de Yellow Submarine, em 17 de julho de 1968 no London Pavillon... Os Beatles ainda atraíam multidões, até para assistir a um desenho animado sobre eles...
... E hoje... ou quase ontem!!! Essas fotos são de 2014, quando lá estive!!!





Fachada do antigo London Pavillon, hoje London Trocadero, um grande shopping center, onde comprei dois pôsteres dos Beatles! Saudades!!!!

Lembro-me que minha irmã Elaine estava em férias e ela sabia que iria passar na “Sessão da Tarde” e me avisou... Aí então, assistimos ao filme! Ainda em preto e branco, porque, nessa época, a gente não tinha TV em cores.

Aspecto do London Pavillon, naquela noite... George, estava acompanhado de Pattie Boyd, sua mulher à época, que o deixou para ficar com Eric Clapton, à esquerda, que não aparece... Ringo e Maureen... Depois, bem... não vou citar... e John... Acima, Keith Richards e Anita Pallenberg, a namorada que ele tomou de Brian Jones...


Já no começo dos anos 2000 adquiri a versão do filme em VHS, lá na Galeria do Rock. No mesmo dia comprei o “Magical Mystery Tour”, também em VHS.

Há alguns anos atrás pedi o filme em DVD, devidamente remasterizado, no amigo secreto de minha família. Um dos meus sobrinhos presenteou-me com ele. Show de bola!


O FILME


Quando Sgt. Peppers e Magical Mystery ficaram para trás, os Beatles, ao retornarem da Índia, foram tratar dos negócios da Apple e, no estúdio, imediatamente gravar novas canções que haviam escrito por lá, e que depois resultou no Álbum Branco.


Nessas idas e vindas os Beatles se envolveram no projeto do filme, uma animação de longa-metragem, realizado logo após Magical Mystery.


Eles ficaram felizes em se ver como personagens de desenho animado, o que os animou a fazer contribuições para a narrativa e mais quatro músicas originais para o filme.


O roteiro foi feito por uma equipe, da qual Erich Segal, autor do romance “Love Story” fazia parte. “Yellow Submarine” é uma fantasia psicodélica, que fala de um reino feliz chamado Pepperland, que é dominado pelos malignos Blue Meanies. Os Beatles saem de Liverpool para salvá-lo em um submarino amarelo e acabam dominando os Meanies pelo poder do amor e da música.




Os Beatles curtiram pacas o longa... E se esqueceram, pelo menos um pouco, das brigas entre eles, que começavam a rolar...


Gosto muito do personagem “Hilary” (cujo nome é Jeremy Hilary Boob!!!). Acho ele bonitinho!



A trilha sonora do filme somente foi lançada em 17 de janeiro de 1969, para não coincidir com o lançamento do Álbum Branco. Em breve falaremos dela, claro, de seus 50 anos!


Hilary Nowhere man!!!..

HEY JUDE/REVOLUTION

Bem, vou contar a história de “Hey Jude” para aqueles que não a conhecem. E, de quebra, de “Revolution”, também!

Quanto ao single, trata-se do mais famoso - porque mais vendido - da carreira dos Beatles. Até o fim de 1968 já tinham sido vendidas mais de 6 milhões de cópias.

Também é a primeira vez que o selo da Apple aparece num disco dos Beatles. Digamos que é o single de estreia da Apple, que perdurou até o final dos anos 1970, lançando os singles, ou músicas solos dos quatro ex-membros da banda.



Meu compacto, orgininalíssimo, de época... aliás, trata-se de um exemplar raríssimo, já que o selo que se popularizou, aqui no Brasil, foi o selo estrela... ESTE É RARO, MESMO!!!


Para falarmos de Hey Jude, no entanto, é necessário que voltemos um pouco na história e falemos também um pouco sobre a vida particular de John Lennon.

Aí está o meu exemplar, com o selo "estrela" da Odeon... também de época...

Como já lhes disse em outras blogagens, John era casado com Cynthia Powell, desde 23 de agosto de 1962, por tê-la engravidado. Conheceram-se na Liverpool College of Art (onde lá estive em 2014!). Dessa relação nasceu o primeiro filho de John, Julian Lennon, em 8 de abril de 1963 (esse povo do dia 8 de abril não é fraco, não!!!).

Foto de 1966, Julian com três anos...





Colégio onde John e Cynthia estudavam, em Liverpool, onde lá estive em 2014.


Apesar de ser uma relação conturbada, com as constantes viagens de John junto com a banda em meio à Beatlemania e, principalmente, no começo da carreira, era, ao mesmo tempo, um relacionamento muito discreto, para a época e por quem se tratava, muito em função mesmo de Brian Epstein, que não gostou muito do casamento, porque ter um Beatle casado poderia afastar parte das fãs, o que realmente não aconteceu. Apesar disso, Brian foi quem pagou o casamento dos dois no Cartório (onde também lá estive!!!) e ainda cedeu seu apartamento para que eles pudessem morar no começo de casados (Trata-se de um lugar no alto de Liverpool, muito bonito, onde também lá estive em 2014...).

1963...


Apartamento que Brian Epstein cedeu à John e Cynthia, quando recém casados, na Hope Steet, em Liverpool... Lugar muito bonito, por sinal...

Cynthia era uma pessoa muito discreta e não se tratava propriamente de uma fã, porque conheceu John bem antes de ele se tornar o que todos conhecemos hoje. Quem quiser saber mais a respeito, dê uma lida no livro que ela escreveu, que se chama “John”.

Imitando os personagens do seriado de TV que John gostava muito, chamado "Goons"...

Bem, o relacionamento dos dois não ia muito bem, principalmente depois que John “descobriu” o LSD e insistia para que Cynthia experimentasse, além, claro, de suas “escapulidas”, aqui e ali.

Ó eu dentro do Philarmonic, naquele 3º dia de viagem a Liverpool, "boteco" este onde John costumava frequentar para comer fish and chips... Adivinhem o que comemos?...

No dia 9 de novembro de 1967 John conhece Yoko Ono, ao visitar a Indica Art Gallery, em Londres. É bom que vocês, que me leem, comecem a se acostumar com John e essa relação com as artes, já que ele era estudante de artes em Liverpool. Então não há nenhuma surpresa em vê-lo visitando uma galeria. A “surpresa” foi ter ficado impressionado com o que viu. Sim, “surpresa”, porque é preciso estar muito, mas muito chapado de LSD para ficar impressionado com o que viu...


1967...

John estava mergulhado num torpor, em meados de 1967, que estava se cansando da vida suburbana que levava junto de Cynthia e Julian. “Good Morning, Good Morning”, de Sgt. Peppers conta um pouco e em parte dessa apatia. Já falamos um pouco disso na nossa blogagem do disco e de como Paul tomou conta, literalmente, do disco e da banda. Deem uma olhadela por lá!



Cynthia e Julian em 1975... Acima, nos anos 2000...

Enfim, quando os Beatles voltaram da Índia John e Paul foram aos Estados Unidos para promover a Apple, mais ou menos no dia 11 maio de 1968, John comunicou a Cynthia que ela não iria com ele para esta viagem.

Um pequeno parênteses para que contemos, também, um pouco da história  particular de Paul, já que isso redunda em muitas canções que ele escreveu antes e depois desse período em que estamos conversando.

Paul tinha uma namorada chamada Jane Asher, uma atriz em começo de carreira no início dos anos 1960. É para ela e inspirada nela que Paul escreveu as mais belas canções dos Bealtes: “All My Loving”. “Yesterday”, “And I Love Her”, só para citar algumas.


Paul, Jane Asher e Julian, em 1967...


No dia 15 de maio de 1967, entretanto, Paul conhece a fotógrafa profissional Linda Eastman, no London’s Bag O’Neils Club. Ele a convida para a festa de lançamento de Sgt. Peppers. Linda faz várias fotos e fica ao lado dele o tempo todo. Enquanto isso, Jane Asher estava nos EUA, em turnê por conta de sua carreira.

Apesar disso, Paul entrega a Jane uma aliança de diamantes, na noite de Natal de 1967, anunciando oficialmente o noivado.

Sede da Prefeitura de Liverpool, onde uma multidão de mais de 500.000 pessoas estavam presentes para saudar os Beatles, em 1963, no retorno deles a Liverpool, depois da fama...

Jane e Cynthia foram à Índia acompanhar os maridos, fato que já descrevi aqui no blog. Então, na volta e na viagem de negócios, Cynthia fica para trás. E Paul acaba se encontrando com Linda, mais uma vez, nos Estados Unidos e recebe dela uma foto ampliada dele abraçado com a filha dela, Healther.

Na volta, porém, a história da maior banda de todos os tempos começa a mudar. E a banda começa a acabar...

John, sozinho em Londres (Cynthia viajou com Julian depois que John a dispensou) convida Yoko Ono para ir a sua casa em Kenwood, no dia 19 de maio de 1968. Eles gravam música experimental no estúdio de John e passam a primeira noite juntos. É o começo do fim.



Cartório, em Liverpool, onde John e Cynthia se casaram..., na Rodney Street...

Ao chegar em casa, dois dias depois, Cynthia descobre que Yoko (que mandava toneladas de cartões postais e cartas para John na Índia, a despeito da presença de Cynthia por lá) estava por lá e decide terminar de vez o casamento com John.

Já Paul estava em Los Angeles, à essa época, para fugir, literalmente, da participação da gravação de “Revolution 9”, que aliás, não se trata de uma música, inventada por John e Yoko, em meio às gravações do Álbum Branco. Linda descobre que ele estava por lá e imediatamente parte de Nova York para se encontrar com ele. Ele fica feliz e os dois vão juntos em uma reunião com altos executivos da Warner e depois ele retorna a Londres.

Aliás, na Premier de Yellow Submarine, onde se encontravam Mick Jagger e Donovan, Paul já estava desacompanhado e a imprensa não deixou de tirar uma “casquinha” de John, perguntando a ele o paradeiro de sua esposa, ao verem Yoko Ono.

No dia 20 de julho, logo após a estreia do filme, é a vez de Jane Asher anunciar o fim de seu noivado com Paul, numa entrevista para a BBC. Ela já havia pego ele em flagrante com uma fã americana com quem ele tinha amizade (Francie Shwartz), alguns dias antes, na casa deles. As fãs, do lado de fora (sim, elas ficavam fazendo “vigília”, tanto na porta da casa deles, quanto em Abbey Road) tentaram avisá-lo da chegada de Jane, mas ele não acreditou. Ela encerrou o noivado ali mesmo.


Cynthia, Jane Asher e Maureen, com os três, em 1967...


Assim chegamos a “Hey Jude”, que começou a ser gravada em 29 de julho de 1968.


LETRA


Quando John e Yoko foram morar juntos em Montagu Square, no centro de Londres (apartamento que era de Ringo e ele cedeu-o à dupla), era de se esperar que, pelo menos, os trâmites do divórcio entre John e Cynthia começassem. Então, como a coisa não se desenrolava, Cynthia e Julian continuaram a morar em Kenwood, no subúrbio.

Com sua capa, original...

Paul sempre teve um bom relacionamento, tanto com Cynthia, quanto com Julian, que, na época, tinha apenas 5 anos. Então, para demonstrar apoio à Cynthia e à Julian, durante o imbróglio da separação de John, ele foi dirigindo de sua casa em St. John’s Wood até Weybridge levando uma única rosa vermelha. Nesse dia, com a incerteza sobre o futuro de Julian em mente, ele começou a cantarolar “Hey Julian” e improvisar uma letra sobre o tema do conforto e da segurança (próprios, aliás, dele). Em algum momento, durante a viagem que leva cerca de uma hora, “Hey Julian” se tornou “Hey Jules”, e Paul criou o trecho “Hey Jules, don’t  make it bad, take a sad song and make it better”. Foi só depois, ao desenvolver a letra, que ele transformou “Jules” em “Jude”, por achar que “Jude” soava mais forte. Ele já tinha gostado do nome “Jud” quando viu o musical “Oklahoma”.

John, Julian e a tia de John, Mimi, em 1967..

A melodia conduziu a letra, o som teve prioridade sobre o significado. Um verso em particular – “the movement you need is on your shoulder” – deveria ser apenas um tapa-buraco. Quando Paul tocou a música para John, comentou que aquela parte precisava ser substituída e que ele parecia estar cantando sobre o seu papagaio. “Esse provavelmente é o melhor verso da música”, disse John. “Deixe aí. Eu sei o que significa.”.

Paul e Julian, em 1967...


JULIAN LENNON

Julian cresceu conhecendo a história por trás de “Hey Jude”, mas só em 1987 ouviu os fatos diretamente de Paul, quando o encontrou em Nova York. “Foi a primeira vez que nós sentamos e conversamos. Ele me contou que vinha pensando na minha situação, todos aqueles anos atrás, no que eu estava passando e pelo que eu ainda teria de passar no futuro. Paul e eu passávamos bastante tempo juntos – mais do que meu pai e eu. Talvez Paul gostasse mais de crianças na época. Tivemos uma grande amizade, e parece haver muito mais fotos daqueles tempos em que estou brincando com Paul do que com meu pai”, conta Julian.



“Eu nunca quis saber realmente a verdade sobre como meu pai era e como ele era comigo”, ele admite. “Mantive minha boca fechada [até hoje]. Muita coisa negativa foi dita sobre mim, como quando ele disse que eu tinha saído de uma garrafa de uísque em um sábado à noite. Coisas assim. É muito difícil lidar com tudo isso. Eu pensava, cadê o amor nisso tudo? Foi muito prejudicial psicologicamente, e por anos isso me afetou. Eu costumava pensar, como ele pode dizer isso sobre o próprio filho?”.


John e Julian, em 1968...


Julian não se atém à letra de “Hey Jude” há algum tempo, mas acha difícil fugir dela. Ele está em um restaurante e a música toca, ou ela surge no rádio do carro quando está dirigindo. “Ela me surpreende toda vez que a escuto. É muito estranho pensar que alguém escreveu uma música sobre você. Ainda me emociona”.


A MÚSICA


Começou a ser gravada, como já disse alhures, em 29 de julho de 1968, tendo sido gravado seis “takes” naquele mesmo dia.

Aqui, também, começa uma grande briga entre dois membros da banda, algo que foi um dos motivos da separação do grupo e que perdurou até o início dos anos 1990, amenizada apenas para o projeto “Anthology”, que, aliás, é nítida a expressão de distanciamento e nesgas de mágoa de George para com Paul.

1967...

Quando Paul começou, no estúdio, a tocar a música no piano, George veio com um riff de guitarra depois de cada frase cantada. Paul não gostou e o advertiu e George, a partir daí, ficou furioso com ele. Claro que era algo como se diz hoje em dia.... “a cereja do bolo”, ou a gota d’água: George estava se cansando de ser um Beatle e de tudo o que isso envolvia, a partir do momento em que conheceu a filosofia hindu. Muito em função também de como suas composições eram sistematicamente rejeitadas por John e Paul, principalmente este último, já que coincidiu sua nova liderança da banda e o aumento de criatividade de George.

"Hey Jude" no programa de TV "The Frost Programme", 8 de setembro de 1968...


Aliás, George foi o primeiro a deixar a banda, no começo das gravações do Álbum Branco, num acesso de raiva que jamais acabou. Era, com certeza, o Beatle mais descontente.

E depois foi Ringo, na gravação de “Back in the USSR”, ao ter suas mãos seguras por Paul, ensinando a ele como devia tocar bateria na música, que deixou a banda, saindo xingando todo mundo. Paul acabou tocando a bateria nesta música.


Noite memorável... há 50 anos...


Ringo estava fora da banda e somente em 5 de setembro de 1968 foi que Paul foi até a casa dele convencê-lo a voltar. Quando Ringo voltou ao estúdio, encontrou sua bateria toda enfeitada de flores.
Na noite seguinte, então, eles continuaram a gravação, trabalhando nos “takes” 7 ao 23 e George não participou, ficando na sala de controle, do lado de fora.

George mudou muito, depois que conheceu o LSD e a cultura indiana... Ficou sério demais, bem longe do desta foto, de 1965....

No dia 31 de julho eles foram ao Trident Studios, aproveitar a mesa de oito canais, novidade na Inglaterra, na época, tendo sido completada em primeiro de agosto, com Paul colocando baixo, voz e mais as vozes dos outros Beatles. Após, uma orquestra foi adicionada, tendo sido os músicos chamados para acompanhar com palmas.

Os Beatles ainda fizeram um vídeo promocional da música no programa “The Frost Programme”, que foi ao ar na Inglaterra no dia 8 de setembro de 1968. É o vídeo que comumente assistimos por aí, no Youtube, em DVD, etc., e que recentemente, por ocasião do lançamento do DVD duplo “One”, foi remasterizado, com áudio muito próximo de excelente.

É o lançamento mais vendido de uma gravação de todos os tempos. Cerca de oito milhões de cópias no mundo todo.






REVOLUTION

O Verão do Amor (junho de 1967) foi seguido pela Primavera da Revolução (Primavera de Praga – 1968); o assassinato de Martin Luther King; e em março de 1968, milhares de pessoas marcharam em frente à Embaixada Americana, em Londres, para protestar contra a guerra do Vietnã. Em maio, tivemos o “maio de 68” em Paris, objeto anterior desse blog. Ao contrário de Mick Jagger, que participou de uma marcha, John assistiu tudo pela televisão, quando Cynthia estava na Grécia (naquela viagem que lhes contei alhures). Ele a começou na Índia e a terminou justamente neste período, fortemente influenciado por tudo à sua volta.

"Revolution", o lado "B" de "Hey Jude"....

Ele queria dizer algo respeito de tudo o que estava acontecendo no mundo, longe da influência (histeria) dos fãs.

Não era a canção de um revolucionário, e sim de alguém pressionado por um meio a declarar sua aliança. É que John era o Beatle mais consciente politicamente e mais esquerdista e alguns grupos achavam que ele devia apoio às suas causas.

A música foi sua resposta a estes grupos, que lhes informava que, apesar de compartilhar com o desejo de mudança social, ele acreditava que a única revolução que valia a pena surgiria da mudança interna de cada um, em vez da violência revolucionária. Entretanto, ele nunca teve certeza de sua real posição e limitou suas apostas na versão lenta da música lançada no Álbum Branco (“Revolution I”).
Depois de admitir que a destruição pode vir com a revolução, ele cantou “you can count me out/in (“Não conte/Você pode contar comigo”), claramente incerto de qual lado seguir. Na versão mais rápida, a do single, ele omitiu a palavra “in”.

"Revolution" sendo executada semi-ao vivo...

Essa omissão causou furor na imprensa alternativa da época. “Um grito de medo lamentável de um burguês mesquinho”, era uma das manchetes. Já a revista “Time” (A “Veja” dos EUA), do “estabilishment”, dedicou um artigo inteiro a respeito da música, dizendo que “criticava ativistas radicais mundo afora.”.

Numa dessas publicações alternativas houve uma troca de farpas entre John e um estudante expoente da época, outro John, mas John Hoyland, que disse: “Essa gravação não é mais revolucionária que Mrs. Dale’s Diary [novela de rádio da BBC da época]. Para mudar o mundo, precisamos entender o que há de errado com ele. E depois, destruí-lo. Impiedosamente. Não é crueldade nem loucura. É uma das formas mais intensas de amor. Porque o que estamos combatendo é o sofrimento, a pressão, a humilhação – o imenso custo da infelicidade causado pelo capitalismo. E todo ‘amor’ que não se oponha a essas coisas é meloso e irrelevante. Não existe uma revolução polida.”.




Em sua resposta, John disse o seguinte: “Não me lembro de ter dito que ‘Revolution’ era revolucionária. Dane-se Mrs. Dale. Ouça as três versões de ‘Revolution’ – 1,2 e 9 – e depois tudo de novo, caro John (Hoyland). Você diz ‘para mudar o mundo, precisamos entender o que há de errado com ele. E, depois, destrui-lo. Impiedosamente’. Você obviamente está em um movimento de destruição. Vou dizer o que há de errado com ele – as pessoas. Então, você quer destruí-las? Impiedosamente? Até que você/nós mude/mudemos a sua /nossa cabeça – não há nenhuma chance. Cite uma revolução bem-sucedida. Que fodeu o comunismo, o cristianismo, o budismo, etc.? Cabeças doentes, e nada mais. Você acha que todos os inimigos usam um distintivo do capitalismo para que você possa atirar neles? É um tanto ingênuo, John. Você parece achar que é só uma luta de classes.”.



Ao ser entrevistado, logo após, por jornalistas da revista, John disse: “Tudo o que estou dizendo é que acho que vocês devem fazer isso mudando a cabeça das pessoas, e eles estão dizendo que devemos destruir o sistema. No entanto, essa coisa de destruição do sistema existe faz tempo. O que ela conseguiu? Os irlandeses fizeram, os russos fizeram, e os franceses fizeram. Aonde isso os levou? A lugar nenhum. É a velha história. Quem vai comandar essa destruição? Quem vai assumir o controle? Vão ser os maiores destruidores. Eles vão chegar primeiro e, como na Rússia, vão assumir o controle. Eu não sei qual é a resposta, mas acho que são as pessoas.”.

É uma posição que John manteria, até a sua morte. Em 1980, em entrevista para a revista “Playboy”, ele disse que “Revolution” é a expressão de sua posição política: “Não contem comigo se for para a violência. Não esperem me ver nas barricadas, a não ser que seja com flores.”.



A GRAVAÇÃO

A música, até então, é a mais “pesada” dos Beatles, sendo superada apenas por “Helter Skelter”, “Yer Blues” e “Birthday” (esta, nem tanto), ambas do mesmo período, que foram inclusas no Álbum Branco.

Eles adicionaram o “fuzzer” diretamente entre na mesa de som e o amplificador da guitarra, com os ponteiros de capitação (VU’s) no máximo.

No dia seguinte, gravaram mais dez “takes”, incluindo palmas e efeitos de bateria, incluindo palmas e efeitos de bateria, bem como mais distorção de guitarras. John adicionou os vocais e o berro introdutório.

Já no dia 11 de julho foram adicionados o baixo de Paul e o piano elétrico tocado por John Hopkins. A gravação foi finalizada somente no dia 13 de julho, com mais linhas de baixo e guitarras tocadas pela dupla Lennon/McCartney.



CLIPE

O clipe que vemos nos VHS’s, DVD’s e Youtubes mundo afora é o mesmo que foi gravado semi ao vivo, também para o programa de David Frost, já citado acima, mas foi ao ar antes de “Hey Jude”, no dia 4 de setembro de 1968.





Eles ainda incorporaram um coro “shoo-be-doo-waah” para essa apresentação, na voz de Paul e George, que é o mesmo coro da “Revolution I” do Álbum Branco.


Muito bem. Terminamos por aqui. Vamos voltar em breve para dar uma pincelada nos 50 anos do LP "Tropicália, ou Panis et Circenses", o manifesto do Tropicalismo, que nos fará entender o que também acontecia por aqui, enquanto os Beatles caminhavam para o seu fim inevitável e o Brasil para o AI-5... Até lá!!!

Ah, aliás, vejam os vídeos que postei, antes que "ALGUÉM" os tire, cobrando direitos autorais... Aquela pessoa "espiritualizada"... de porco...

Vou deixar o por do sol em Liverpool, da janela do hotel onde ficamos, para suavizar e matar a saudade de todos nós...

Muitas e muitas saudades!!!1

Saudações Beatlemaníacas!...