domingo, 12 de março de 2017

50 ANOS: OS HIPPIES GANHAM SUA TRILHA SONORA UNIVERSAL: SGT. PEPPER'S LONELY HEARTS CLUB BAND - II PARTE

“Qualquer que fosse o vento da época, ele também impulsionava os Beatles. Não nego que fôssemos a bandeira no mastro do navio. Mas o barco inteiro estava em movimento.”. John Lennon, Playboy, 1980.

Pausa na gravação dos clipes de Penny Lane e Stawberry Fields: a influência psicodélica;

Dando seqüência às comemorações dos 50 anos de Sgt. Peppers, vamos voltar um pouco no relógio do tempo, para começarmos entender como surgiu este disco, já que tão diferente dos outros deles, e, claro tão muito diferente dos outros, das outras bandas e artistas da época... E muito, mas muito diferente do que veio depois dele.

Voltemos ao verão de 1966 - para eles, maio/junho daquele ano. Mais precisamente o dia 27 de maio, dia em que Bob Dylan deixou os ingleses – e os Beatles – de queixos caídos com sua histórica apresentação no Royal Albert Hall. Depois daquela noite, a maior dupla de compositores da história jamais foi a mesma, confirmando o que os outros dois encontros anteriores com Dylan já os haviam transformado – senão apenas em um – Lennon.

Dylan fez de sua tempestade elétrica a transformação do folk e do pop no que chamamos modernamente hoje de rock and roll. É impossível entender o rock, da segunda metade dos anos 1960 até pelo menos o início dos anos 1990, com a ascensão das bandas de Seattle e do novo Brittop e o seu evidente declínio, depois disso, nesses tempos tenebrosos em que passamos, sem conhecer Bob Dylan e seus contemporâneos do outro lado do Atlântico.

O modo de compor (dizer) as músicas mudou. O comportamento mudou. E, como veremos, o modo de fazer discos, mudou.

Enquanto isso, o Beatle “menos ligado” a Dylan, Paul, estava junto com os demais, na noite em que Dylan apresentou Allen Ginsberg, o beatnik – que depois se tornou um dos líderes da contracultura.

Ao mesmo tempo, Barry Miles foi o organizador da primeira leitura da poesia de Ginsberg em Londres, tendo sido também mantenedor do estoque da poesia beat naquela capital, através da City Lights, de São Francisco.

McCartney, sem perder tempo, começou a andar com Miles, que o introduziu para o underground artístico de Londres, que já àquela época, fervilhava. Bebendo desta “cultura”, ou melhor dizendo, contracultura, e influenciado pela fumaça característica em seu redor. Isso se intensificou e foi um dos motivos pelos quais Paul mudou-se da residência dos Asher (dos pais de sua namorada à época, Jane Asher) para St. John’s Wood – lugar bem próximo dos estúdios de Abbey Road e, claro, dos “points” de onde a coisa “acontecia”.

olhem o que acontecia no submundo londrino: o Pink Floyd!

Sua visão de mundo mudou, sobretudo acerca de som e imagem. Era a era psicodélica que, enfim, chegava a um Beatle. E do Beatle, talvez, mais, digamos, eclético e interessado, o que o levou a declarar “Eu achava que quem fazia coisas esquisitas era esquisito. De repente, percebi que quem fazia coisas esquisitas não era esquisito, que as pessoas que diziam que eles eram esquisitos é que eram esquisitas”.

Agora, perguntamos: aonde estava John Lennon? John, à essa época, morava, a exemplo de Paul, um pouco longe disso tudo e ansiava, como Paul, a mudar-se para mais próximo do centro de Londres, o que o fez dois anos depois, inclusive mudando também de esposa.

Achava – e com razão – que ele levava uma vida suburbana e imbecilizante, “perto do clube de golfe com Cynthia”. E, ao chegar, no começo de abril de 1966, à primeira sessão de gravação de um novo disco dos Beatles (que viria a chamar-se Revolver), com um canto fúnebre monocórdico e sem nome deu a Paul total liberdade para trazer seus apoios de vanguarda, naquela que se chamaria, também incidentalmente, e que ficou na história como “tomorrow never knows”. “Abandone cada pensamento, entregue-se ao vazio...”... A partir de então, o caminho estava aberto.

Daí, para “She said, she said”, escrita apenas três semanas depois do show de Dylan, foi tudo apenas um passo.

Era o fim de uma era. Para os Beatles. E para a música. E o começo de outra, para a história. Jamais voltariam a apresentar-se num palco (com exceção do telhado da Apple), até porque havia bandas melhores que eles, neste lugar: não dava para competir com Who, Stones, Kinks, Yarbirds, bandas muito mais furiosas e performáticas ao vivo. E, claro, sua nova música contrastava muito com seu velho “setlist” dos shows: é difícl imaginar eles tocando “Baby’s in black” e “Paperback writer”, “All my loving” e “Rain” num mesmo show, por exemplo, já que havia um descompasso entre seu costumeiro público adolescente e a nova juventude que estava surgindo.

O verão de 1966, portanto, o que antecedeu ao "verão do amor" (1967) determinou novos rumos ao rock, para sempre, com estes lançamentos: Pet Sounds, dos Beach Boys, Blonde on Blonde de Bob Dylan e Revolver, dos Beatles iniciaram o mergulho no mar lisérgico. Os três tinham isto em comum: o uso de drogas para provocar a manifestação da mente, como estímulo para composição (e comportamento).

Esta expressão "que provoca a manifestação da mente" é de Humphrey Osmond, para definir o tema "psicodélico", datada de 1956.

Talvez, a primeira música que fala sobre o uso de drogas no rock surgiu com Dylan, em "Subterranean Homesick Blues": "Johnny's in the basement/Mixing up the medicine" (Johnny está no porão, preparando o remédio, isto é, extraindo a codeína do xarope para tosse que ainda podia ser comprado na farmácia.). Tal como "Mr. Tambourine Man", que sugeria que algo além do haxixe impulsionava as velas do "magic swirlin' ship" (barco mágico que gira) de Bobby.

As moscas não pousam em Syd Barrett!!! Nem no Pink Floyd!!!

Mas no caso de Dylan, o uso de anfetamina foi o que o conduziu durante esse processo. Mas no Caso de Brian Wilson, o confuso e competitivo líder dos Beach Boys, foi mesmo o LSD que o fez "viver em outro mundo", quase que para sempre. "Tomei minha cota de LSD. Isso danificou minha mente... Voltei, graças a Deus, mas não sei em quantos pedaços", disse ele, em 1975.

Wilson entrou numa paranoia de competição contra os Stones e, principalmente contra os Beatles, quando ouviu, pela primeira vez, Rubber Soul (1965), e quis dar “a resposta americana” ao disco, com Pet Sounds (1966). Mas sentiu-se extremamente inferiorizado, ao ouvir “Revolver” – e o ouviu de forma errada, já que nos EUA, não houve o lançamento de Revolver, e sim, de uma “colcha de retalhos” de Revolver e Rubber Soul: “Yesterday & Today”, como a Capitol fazia com os discos dos Beatles: fora de contexto e propósito.

Daí, como muitos americanos, Wilson não entender a progressão sequencial e óbvia de Rubber Soul, Revolver e Pepper (este último, o primeiro a ser lançado nos EUA como o original inglês).

Com a cena underground de São Francisco (Freak out, de Mother’s of Invention, de Frank Zappa) e de Nova York (Velvet Underground & Nico) fervilhando e, coincidentemente com a última turnê dos Beatles passando por lá, acredita-se erroneamente que os Beatles absorveram as cenas. Não. As suas turnês eram rápidas e mal davam tempo de parar para isso ou aquilo. As “cenas”, aliás, chegaram até eles como já dissemos lá em cima.

A cena de São Francisco, no entanto, tinha uma outra banda com uma visão psicodélica, não menos influente aos Beatles: The Byrds, que durou pouco com seu “mais sai do que entra” de integrantes e com o excesso de uso de drogas psicodélicas.

Outro que havia chegado à “cidade do momento” era Jimmy Hendrix, levado pelo ex - empresário dos Animals, Chas Chandler, no dia 24 de setembro de 1966. Foi em Londres que Hendrix, com sua primeira banda, “Experience”, tornou-se o que hoje todos nós conhecemos. Vivendo nos EUA ele não teve nenhum sucesso. Em 24 de novembro gravou seu primeiro compacto – “Hey Joe”, colocando Londres para fervilhar.

Syd, em uma apresentação no UFO

Já os supostos rivais locais dos Beatles, com “Paint it Black”, abandonavam de vez o rythm & blues e suas cantigas de angústia adolescente – Satisfaction, The last time, entre outras; os Kinks e seu líder, Ray Davies, com “Set me free”, “Sunny afternoon” e “Dead end Street”, também chegavam nas paradas; e os rapazes de Bush, The Who, com a sua performance “I can see for miles” (que eu gosto pra caramba!!!) estavam tentando enxergar a luz psicodélica, que ofuscaria a muita gente...

Menciono-os todos aqui, para podermos compreender melhor como estava Londres nos idos de 1966 e como os integrantes de todas essas bandas relacionavam-se e trocavam experiências musicais... e drogas.

Há cinquenta anos, portanto, o rock passava por transformações. Os meses de janeiro, fevereiro e março de 1967 assinalam o período das sessões gravação das músicas do disco, época em que, também, a banda começou a separar-se, como veremos mais adiante. Muita gente – leigo em matéria de Beatles ou não – ainda acredita que eles se separaram no período e nos discos que vieram depois de Pepper, conforme quase uníssono que se formou depois da separação. Mas foi com Pepper que mentalmente cada membro da banda começou a tomar o seu próprio rumo, como haveria de ser natural, se olharmos o ano de 1967 e, claro, como colocamos na bolgagem anterior, isto é, cada um começou a dar conta apenas de si e de suas respectivas famílias (exceto Paul, que ainda não era casado e John, cada vez mais fora desse mundo em que vivemos, por conta do LSD).

Todo o esforço de todos os envolvidos com o disco em torná-lo “conceitual” (tem-se a ideia e, em cima dela, faz-se a coisa do início ao fim) esmoronou-se, não somente por conta das diferenças que começavam a aparecer, mas também em razão do afastamento de Brian Epstein, que os unia, de certa forma, por conta mesmo dos egos individuais, que começavam a aflorar.

Isso não quer dizer, entretanto, que o disco não possui “certa” unidade; mas, quanto à ideia e ao impulsionamento, com certeza, Paul foi o grande responsável – para o bem e para o mal – pela elaboração do disco, quase se tornando um álbum solo dele.

É que em 1967, como já dissemos, Paul tinha mais liberdade para sorver o que acontecia na “cidade do momento” (Londres), já que havia se mudado para um local próximo aos estúdios de Abbey Road e, claro, o único beatle solteiro podia “badalar’ na noite de Londres – como o fez - , sem se preocupar em “voltar para casa”: Jane Asher, sua namorada à época era uma atriz de grande futuro e priorizava sua carreira; logo, viajava sempre e, por esta época, estava nos EUA, deixando a área “limpa” para Paul.

O fim das turnês dos Beatles significou o maior período produtivo da banda. Isto é certo. Mas não é menos certo que significou, também, esse distanciamento de interesses entre os quatro. E, claro, um fôlego para a “concorrência”, dos dois lados do Atlântico, já que as bandas, com exceção dos Stones, estavam em plena atividade, tanto de composição de discos, quanto de shows.

Falando nisso, e para que não nos alonguemos muito, a “concorrência” tinha uma banda formada em Cambridge, em 1965, chamada “Sigma 6”, que, posteriormente, ao cair seu último bastião de blues – o guitarrista Bob Klose – mudou seu nome para “The Pink Floyd Sound”, uma homenagem a dois bluesman’s norte-americanos: Pink Anderson e Floyd Council, batizada pelo seu grande, histórico e líder nato (E GÊNIO) Roger Keith “Syd” Barrett.

 Partiu, principalmente, dessa “concorrência”, em Londres, a faísca que caiu na cabeça de Paul para a ideia e construção do disco. Explico:

O Pink Floyd, já rebatizado, era – e sempre será – a banda precursora e o grande expoente do psicodelismo inglês, quiçá do mundo, já que do outro lado do Atlântico, as outras que se lhe assemelhavam não faziam nem 10% do som psicodélico que o Floyd fazia, no estúdio e principalmente ao vivo.

O Pink Floyd no UFO

É. É a minha segunda banda. Senão a primeira, já que os Beatles é “our concour”.

Conduzida pelo seu líder, Syd Barrett, a banda era, nessa época, a grande atração do “underground” de Londres. Seus shows reproduziam com fidelidade os efeitos das visões de quem toma LSD, através de “slides” coloridos com óleo que eram mostrados no palco, que proporcionavam os tais efeitos. Foi a primeira banda da história a combinar música e som.

Neste mesmo período fértil, conseguiram um contrato com a EMI, a mesma gravadora dos Beatles; possuíam um excelente compositor: Syd Barrett; e tinham o endosso de Paul McCartney, que já os conhecia de suas andanças nos clubes de shows da cidade.

Foto da entrevista que Paul deu à TV, na época, defendendo a coisa psicodélica e, por tabela, o Pink Floyd.

Gravaram o disco “The Piper at the Gates of Dawn”, o melhor disco psicodélico da história, lançado em julho/agosto de 1967, um mês depois de Pepper, por conta da agenda lotada de shows da banda, e, claro, por conta também do lançamento de Pepper... E também devido às pressões da EMI para que o Pink Floyd lançasse um “single” de sucesso, após “Arnold Layne”. Naquele tempo, o mercado de discos era feito com sucessos – isto é, “singles”, compactos de 7 polegadas e depois as bandas lançavam um LP.

PIPER... Não é melhor do que PEPPER, mas é mais, muito mais PSICODÉLICO!!!!

Esta é minha edição nacional, em estéreo...



Syd Barrett é GÊNIO!!!!

Sgt. Peppers acabou também com isso. Inaugurou outra era no mercado fonográfico.

Daí  o Floyd gravar seu “doce” compacto “See Emily Play” (a garota que começou a perder a cabeça na brincadeira, o que, claro, era uma referência a uma usuária de LSD) e a não menos doce, “Candy and a Currant bun”. “Doces” era uma das gírias que os usuários referiam-se ao LSD, cujo consumo tornou-se proibido nos anos 1960.

O Floyd tocavas nos “Clubs”, isto é, nos clubes – assim se chamavam os locais de shows, na era pré-estádios e pré-arenas (“arena”... termo para designar um local de luta... ah, essas “modernidades”...). Dois destes merecem destaque, para a cena da “cidade do momento”: Marquee e UFO. No primeiro havia uma gama de bandas um pouco mais diferentes no som – The Move e Soft Machine revezavam as noites com o Floyd.

O famoso selo Harvest, da EMI em Piper...


Já no último, o UFO, foi o primeiro clube londrino onde a psicodelia local encontrou seu grande palco e, claro, a maior banda psicodélica da história tornou-se frequente por lá, tocando em quase todas as sextas-feiras, de dezembro de 1966, até o seu fechamento, outubro de 1967.

Show de luzes e som...

Quando estive em Londres – claro! – passei por lá, naquele local histórico, que recebeu e deu palco para minha grande banda e onde Syd Barrett consagrou-se. O prédio ainda existe, mas não tenho ideia do que abriga... Quem sabe as luzes psicodélicas ainda perambulam por lá?...

Meu CD, remasterizado em estéreo e em MONO, que é como Piper  - E PEPPER  - devem ser ouvidos... Pois assim foram gravados...

Outro clube de destaque, em Londres, era o Speakasy, onde o Procol Harum (banda psicodélica, que mais tarde viria a fazer rock progressivo) apresentou “A Whiter Shade of Pale”, com a presença dos quatro Beatles, no final de maio de 1967.

Paul McCartney era presença certeira em todos esses clubes. E foi o primeiro Beatle a conhecer e ouvir o que estava acontecendo na cidade. E a conhecer a ouvir o Pink Floyd, o maior expoente da cidade, assumidamente "ligada".
cartaz de janeiro de 1967.

"Ricky Tick" era outro Clube de Londres, onde o Pink Floyd levava o psicodelismo...

Daí, cai por terra mais uma lenda sobre Pepper, que muita gente achou - a ainda acha - que é coisa de Lennon, por que era o líder natural dos Beatles (era, até Pepper, mesmo) e que era considerado um decano dos malucos de plantão. Mas foi o mais "careta" dos quatro quem descobriu o submundo londrino, e o idealizou, transformou-o, sintetizou-o, comandou-o do início ao fim em o maior manifesto da ética hippie, jamais superado por qualquer outro, num disco, neste disco: a trilha sonora universal dos hippies.

Na próxima blogagem, vamos falar mais especificamente das músicas. Acho que já podemos contextualizá-las, no tempo e no espaço... Espaço de cujo qual nada mais, nada menos do que Syd Barrett (e o Pink Floyd) é o grande porteiro, selecionando os viajantes...

"Há coisas além de baterias e guitarras que devemos tentar. Nos últimos anos, estamos à vontade, considerando que as pessoas se acostumaram a comprar nossos discos... Podemos fazer o que nos agrada sem nos conformar ao padrão pop. Não estamos envolvidos apenas com música pop, mas com toda a música e há muita coisa para conhecer.". George Harrison, 1967.

"Percebemos pela primeira vez que um dias alguém estaria segurando algo chamado 'o novo disco dos Beatles', e normalmente isso seria só uma coleção de músicas com uma foto bonita na capa, nada mais. Então a ideia era criar algo completo com que a pessoa pudesse fazer o que preferisse; só que oferecido de forma mágica.". Paul McCartney, 1967.

"Sempre detesto ouvir partes de minhas músicas que não ficaram boas. Há partes em 'Lucy in the Sky' de que não gosto. Parte do som de 'Mr. Kite', não ficou bom. Gosto de 'A Day in the Life', mas não ficou tão legal quanto eu achava quando a fizemos. Creio que deveríamos ter trabalhado mais nela. Mas não levantei a bunda para fazer nada.". John Lennon, 1968.

"Pessoalmente eu não gosto mais de ser um Beatle. Toda essa coisa 'Beatle' é trivial de desimportante. Estou farto dessa ideia de eu, nós e todas as coisas sem sentido que fazemos. Estou tentando encontrar soluções para coisas mais importantes na vida.". George Harrison, 1967.

"Paul vinha ouvindo muita coisa de vanguarda(...). Ele tinha dito a John que gostaria de incluir uma passagem com esse clima vanguardista. Teve a ideia de criar uma espiral ascendente de som, sugerindo que começássemos a passagem com todos os instrumentos na nota mais grave, progredindo até a mais aguda, cada um a seu tempo.". George Martin, 1967.

"Brian Epstein com certeza temia que eles estivessem indo muito além da cabeça do público - particularmente com 'A Day in the Life' - . No que lhe dizia respeito, os Beatles se resumiam a shows ao vivo e garotas gritando. Ele achava que a banda se enterraria no próprio traseiro se continuasse a fazer aquela merda esquisita... Eu presenciei o final de uma conversa. Ele estava muito descontente com a direção tomada, e Paul o tranquilizava, 'Vai dar tudo certo. Todo mundo vai adorar.'". Miles

"Gravar foi muito simples. Trabalhamos no primeiro trecho, que era de John, e então Paul disse que tinha alguma coisa. Então gravamos esse trecho. Mas havia esse espaço gigante entre os dois, então contamos os compassos e pensamos em preencher depois. Nesse ponto já nos sentíamos à vontade no estúdio e com que tentávamos fazer. Fazia parte do jeito como trabalhávamos... Não sentávamos e reclamávamos, 'Ai, meu Deus, olha o que estamos fazendo.' Era simplesmente 'Vamos fazer isso'.". Ringo Starr, 1987



Paz e amor, sempre, a todos...


domingo, 15 de janeiro de 2017

50 ANOS DE SGT. PEPPERS - 1ª PARTE


 Boa tarde a todos,

Com enorme satisfação, voltamos neste ano de 2017, para a nossa primeira conversa, sobre os 50 anos de Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, para mim e para muitos, o maior disco de rock de todos os tempos. Há controvérsias – sérias, mesmo – mas somente existem para comprovar que, claro, como já foi dito: “toda unanimidade é burra”.

A capa mais icônica, famosa, copiada e parodiada da história do rock de todos os tempos estava quase pronta....

Escrever sobre Sgt. Peppers não é tarefa fácil. As emoções precisam ficar um pouco de lado e o nosso senso crítico, aflorar.

Estaremos, talvez, em duas ou três blogagens desta para podermos entender um pouco deste disco que revolucionou – SIM – a música pop, e grande parte do comportamento jovem.

Tentaremos contextualizá-lo à sua época, já que se trata de um álbum datado (e atemporal, para nós, adoradores), tarefa esta que ele mesmo realiza, de per si, quando se escuta. Digo-lhes isso, porque é impossível escutar Sgt. Peppers sem automaticamente levar sua mente ao emblemático ano de 1967.

Para tanto, precisamos voltar para trás no relógio cronológico da história, e dar uma olhadela nos motivos pelos quais a música – dos Beatles e de sua geração – mudou tanto, da primeira à segunda metade dos anos 1960. Daí, quando alguém fala ou escreve acerca dos anos 1960 deve precisar a QUE parte desta década se refere, no que toca ao rock, comportamento, etc.

Quando observávamos essas pessoas dizerem sobre os anos 1960 achávamos que a década referia-se a um todo, mas, com um pouco mais de estudo e compreensão chegamos à conclusão que o mundo era um, antes de 1966, e, evidentemente outro, após este ano.

Por exemplo, existe uma longa diferença entre “It’s only love”, de Help! (1965) e “I’m only sleeping”, de Revolver (1966). Nem parecem músicas de uma mesma banda... e, no exemplo, do mesmo autor (John). E, o intervalo entre ambas medra pouco mais de um ano, um ano e meio, no máximo...

Quando neófitos em Beatles – se é que um dia fui! – não percebíamos as drásticas mudanças, através das capas dos álbuns e da sonoridade. Quanto mais tentar entender o porquê disso tudo. Quando vamos amadurecendo no rock, vamos também contextualizando-o historicamente: o porquê do rock progressivo, por exemplo. Ouvir Led Zeppelin sem sequer entender de onde aquilo tudo vem é como comer um bolo de chocolate sem degustá-lo e sentir seus aromas e sabores... Isto não quer dizer que se deva “consumir” o rock com profundidade ou cheio de frescuras. Não. O rock foi concebido pela e para as massas, não para estabelecermos rituais para sua audição... Se bem que, do jeito como as pessoas, hoje, andam chatas, é bem capaz...

Mas também, precisamos saber por que, onde, como as grandes bandas de rock fizeram suas grandes músicas, seus grandes álbuns. Saber o que lhes moveu é estar contextualizado, bem preferível a estar “atualizado”, porque, penso, o rock, nos dias de hoje, “respira por aparelhos”... Se já não os desligaram.

Então, se você, que me lê, gosta desse estilo, desse tipo de música, é importante que você passe por todos esses elementos, quando puxar um LP de sua estante e colocar a agulha para sulcar. Como um livro que você lê e tenta penetrar em seu contexto. Com a música ocorre o mesmo.

Vejo hoje uma avalanche de relançamentos em vinil – falamos em LP? – no mercado, bem como as notícias que dão conta da reabertura de antigas fábricas, na Europa, nos EUA e, aqui perto de nós, na Argentina. Há também relançamentos de novos modelos de toca discos, como a japonesa Technics.

Isso tudo não significa contexto, ainda que haja um outro aí contido. É quase como estar “atualizado”, em mais uma tendência de modismo, sofisticação e descolamento, dessas que o sistema usa para nos pegar (pegadinha, mesmo).

Preços astronômicos e muita gente ganhando muito dinheiro com isso. Nada contra em “ganhar dinheiro”. Mas, será que não estamos sendo enganados com toda essa onda de “vintage”?

Em algumas blogagens lá trás chamei-lhes a atenção da questão da gravação analógica e digital dos discos; que essas gravações tem diferenças; que, uma banda que, no passado, gravou um disco em analógico é preferível ouvi-la em analógico; que uma banda que grava em digital, deve-se ouvi-la em digital... Resumindo, se um artista é da época do vinil, ouçamo-no em vinil; se faz parte do contexto digital, CD, ouçamos o seu CD. Reverter, descontextualizar um e outro é, no mínimo, desonestidade, beirando a charlatanismo, dadas as diferenças gritantes de um modelo para outro.
  
Sei que tem todo um apelo à nostalgia, quando os neófitos pegam um LP nas mãos (quando sabem pegá-lo). É chique, não é mesmo? Não quero dizer com isso que nós, os supostos mais velhos fazemos parte de uma casta celeste seleta “que viveu em determinada época” e que por isso somos privilegiados, à parte dos que não tiveram o prazer de colocar um disco na vitrola. O problema reside sempre, em se tratando de rock particularmente, em a medida de influência que determinadas coisas exercem sobre você; será que você realmente escutou ou escuta rock?

Falando em contexto, lembrei-me da série “Guerra nas Estrelas” e seu contexto. Escrevei, recentemente, numa dessas redes sociais, acerca de uma propaganda de uma prefeitura daqui do interior de São Paulo, que desvirtuou completamente o legado da saga, invertendo “as bolas”, para chamar a atenção sobre a epidemia de dengue no local.

Quer dizer, as pessoas assistem, vão ao cinema, consomem, compram... E não entendem? A velha história pura e simples do bem contra o mal? Fiz um gracejo com a expressão que tomou conta nestes tempos mais modernos... “Star Wars”. Disse que a criatura que elaborou a tal propaganda precisa assistir à Guerra nas Estrelas... e não “Star Wars”...

Trocar os sabres de luz e os personagens – Darth Vader, ainda que seja, talvez, o personagem mais emblemático da saga, ainda é a personificação do mal... Ainda que depois, convertido, fica sua imagem associada ao mal.


Recentemente estivemos no cinema, aqui no interior, e "achei-os" novamente... Lembro-me muito bem deles...

Só mesmo uma sociedade onde os valores estão completamente invertidos, ou desprovida de quaisquer valores - que não os monetários -, pode fazer tamanha lambança!

É por isso, então, que devemos entrar no contexto de Sgt, Peppers, e, sobretudo, o que é mais importante: ESCUTÁ-LO dentro de seu contexto, porque ainda vamos ver e ler muita abobrinha sobre ele e sobre os Beatles, no decorrer deste ano... Ainda mais neste ano, ano de seu cinqüentenário.

O que era o mundo, em 1966/1967? O que estava “em jogo” naquele período? Havia a guerra fria, a luta de grande parte do ocidente contra o bicho-papão comunismo... A sociedade patriarcal, os “valores” da família, da “religião”, do “trabalho”... A guerra do Vietnã... Não existiam computadores, celulares, “internet”, jogos “on line”, televisão de LED “smart”... Pouquíssimas pessoas no mundo, aliás, tinham uma TV em cores!... Vejam vocês... A Inglaterra era a atual campeã do mundo de futebol!!!!... Falando neles, a homossexualidade era proibida, por lá...

Falando em proibição, no Brasil, vivíamos uma ditadura militar, com perseguições, torturas e mortes sem fim, com censura nos meios de comunicação, de artistas, do pensamento, etc... O mundo era radicalmente diferente do nosso, de hoje. Ou será que, “apenas guardadas as devidas proporções”?...

Trazer, portanto, Sgt. Peppers para os dias de hoje não é tarefa fácil.

1966 – REVOLVER TUDO.

Os Beatles estavam amadurecendo a ideia, por eles mesmos, de que iriam dar um basta nas turnês. Após o lançamento de REVOLVER, em 5 de agosto daquele ano, já dissecado aqui no meu blog, essa ideia tomou forma e partiram, então, para  a sua última, que se iniciou em 11 de agosto, percorrendo algumas cidades dos EUA, que já estavam sob contrato, que deveriam cumprir.

No Candlestick Park, em São Francisco, em 29 de agosto, apresentaram-se, em turnê, pela última vez. Não foi a última apresentação ao vivo, como erroneamente muitos dizem: a última foi no telhado do prédio da Apple, em Londres, no dia 30 de janeiro de 1969.

Voltaram a Londres e, também, pela primeira vez, cada membro do grupo foi para um lado:

John foi participar do filme de Richard Lester (que dirigiu “A Hard Day’s Night” e “Help!”), How I Won the War. As primeiras filmagens foram feitas na antiga Alemanha Ocidental, e as demais na Espanha. Somente Neil Aspinall estava com ele. Foi nesta época, fora das filmagens, que ele começou a usar seus óculos redondos. E também foi na Espanha que começou a escrever Strawberry Fields Forever, a primeira a ser concebida para o novo álbum;

Ele até cortou o cabelo, estilo militar e o óculos já era um esboço do que viria...

Paul foi o único dos quatro que ficou em Londres. Como eu já escrevi aqui no blog, Paul começou a freqüentar o “underground” londrino e absorver-lhe a cultura – quero dizer, a CONTRACULTURA!. Isso foi a pedra fundamental da concepção e da elaboração de Sgt. Peppers, como veremos mais pra frente. Nesse ínterim escreveu a trilha sonora do filme The Family Way, a convite de George Martin;

Ringo preferiu viajar e estar com sua família, já que Maureen, sua esposa à época, estava grávida;

George vai à Índia, no dia 20 de setembro de 1966, com sua esposa, à época, Pattie Boyd, a fim de estudar cítara, ioga, filosofia e religião local.

Brian Epstein, a seu turno, depois que foi comunicado pelos quatro de que não mais fariam turnês, ficou meio sem ter o que fazer e dizer, e foi cuidar de sua peça teatral, no Saville Theatre.

Eram suas primeiras férias, e o público e os fãs não estavam acostumados com isso. Daí os boatos, naquele tempo, da separação do grupo. Vez ou outra Brian ia à imprensa desmenti-los. Nem estavam acostumados a ficarem sem novos lançamentos dos Beatles. Pela primeira vez, desde 1963, não havia um novo produto dos Beatles para o fim de ano. Nasce a primeira coletânea oficial da banda: A Collection of Beatles Oldies... But Goldies, lançado em 9 de dezembro de 1966.



A primeira coletânea oficial... Este exemplar é o primeiro estéreo, nacional, de 1972!
 Trata-se de uma coletânea onde figuram algumas gravações apresentadas pela primeira vez em estéreo (editadas, pois, como já lhes disse os Beatles, até o Álbum Branco, gravavam tudo em mono), e “Bad Boy”, tida como inédita em disco, tendo sido apenas lançada no LP norte-americano Beatles VI, em 1965.




Meu exemplar mono, de época, nacional, de 1967.

Outro fato, não menos importante para, principalmente, o futuro da banda, aconteceu no dia 9 de novembro, quando John, ao visitar a Indica Art Gallery, em Londres, conhece a artista plástica Yoko Ono, de péssimas lembranças para todos nós, amantes dos Beatles...

Data dessa época, também, a mudança de visual da banda: todos de bigode, John de óculos, George de barba... Se alguém ainda tinha esperanças (Brian e muitos fãs adolescentes) de que os Beatles voltariam a ser os mesmos, fazendo o relógio voltar para trás e cantar iê, iê, iê...


Aliás, George e principalmente John já usavam LSD regularmente... Ringo e bem depois Paul passou a usá-lo. Outro aspecto fundamental de Sgt. Peppers.

24 de novembro de 1966 – A PRIMEIRA SESSÃO DE GRAVAÇÃO DE SGT. PEPPERS.

Nesta noite a banda reúne-se, nos estúdios Abbey Road, para aquela que foi a primeira sessão de gravação de Peppers: na pauta, a música que John começou lá na Espanha: Strawberry Fields Forever. Novos instrumentos, novo visual, novas roupas psicodélicas, novas letras, efeitos, sonoridades, técnicas de gravação... Os Beatles e o mundo já não eram mais os mesmos.

John, na porta de Abbey Road, dá entrevista, explicando o "novo" estilo e disco do grupo, em 20/12/1967

Enquanto isso, desde a segunda metade de 1966, as noites do “underground” londrino fervilhava, com a luz psicodélica de seu grande e principal expoente: Pink Floyd, juntamente com a mais “nova” novidade do pedaço: The Jimmy Hendrix Experience, com seus costumeiros notívagos The Move e Soft Machine. Do outro lado da rua, no mesmo endereço, com seu blues psicodélico, o maior “power trio” da história: Cream; e os velhos rapazes de Bush, quebrando tudo: The Who... Ah, a Inglaterra... Londres... Até Janis Joplin rendeu-se à magia daquele ambiente, quando lá chegou pela primeira vez em 1968... Como eu não iria render-me, quando lá estive, em 2014?...


Estação de Marylebone, onde foram gravadas algumas cenas de A HARD DAY'S NIGHT... Subindo ou descendo? Não me lembro!!!!

Brincando um pouco na faixa falsa, a que todo mundo atravessa, pensando ser a verdadeira...

é NÓIS no tube...




É impossível contextualizar e falar de Peppers sem esse ambiente. Vamos falar um pouco dele, e de minha segunda banda, o Pink Floyd, na próxima blogagem... Até lá!!!



sábado, 8 de outubro de 2016

A TRAGÉDIA E A FARSA: TALVEZ A HISTÓRIA NÃO SE REPITA.

Domingo passado -  2 de outubro de 2016, foi o dia em que reiteramos o que verdadeiramente somos.


O PT desbotou o vermelho há muito tempo... é só figura decorativa, nada mais.

Projetos, pessoas... Há séculos que o Brasil se debate entre o novo-velho e o velho-novo.


Passada esta semana, dei-me um tempo para melhor refletir no que aconteceu, de verdade (talvez uma pobre verdade, porque minha), nas eleições municipais que ocorreram. E, perguntei-me o porquê eu estaria a refletir em coisas que, para mim, não fariam mais sentido. Algumas coisas ainda me fazem sentir; algumas percepções do momento em que passamos estão, de certa forma e medida, mexendo comigo. Deveriam? Que tipo de construção íntima realizei, durante algum tempo, para que a política ainda exerça determinadas influências em minha vida? Digo-lhes “política” na acepção da palavra, e não à “política” que vulgarmente se conhece e se “discute”, mormente em período eleitoral. Mas, ao mesmo tempo, por que essa “política” em hora eleitoral (e porque eleitoreira) ainda me instiga a escrever a vocês, que me leem?

O meu comportamento e o comportamento da sociedade, em geral, é expresso, também, nas urnas. Esta é uma conclusão. Por que nos comportamos assim? É uma pergunta que ainda não se tem resposta. Por que nos expressamos somente nas urnas?

Até quem não gosta da política e da “política” acaba expressando-se, não somente nas urnas, mas também – e em grande parte em razão delas – de todas as formas. E a “internet”, através das redes sociais (como se precisássemos disso) virou o palco dos palpites, que antes eram feitos em praça pública – como o é, ainda, aqui no interior, sem abstenção da outra.

Penso, então, que, hoje, há uma outra forma de expressar-se a opinião política e, claro, a outra, a “política”. Quando eu militava politicamente – isso, lá pelos idos do final dos anos 1980 e até a metade dos 1990 – não imaginava que tudo isso ganharia novas proporções e novas reflexões.

Naquela época isso tudo era feito, ainda, nas ruas. E o fenômeno do “marketing” eleitoral tomou corpo (e alma) quando eu não mais via possibilidades de construções de estruturas (daqui a pouco a gente conversa sobre isso) capazes de transformar a realidade das pessoas  - que mais precisam -, pois, muitas há que não precisam ser suas realidades transformadas, ou porque não querem, ou porque não possuem, ainda, o verdadeiro “preparo”, a estrutura necessária para modificar-se, e modificar o meio em que vivem.

Hoje, contudo, a coisa é bem diferente. As opiniões e as informações e as deformações correm feto água, aos quatro cantos. A rua não alcança. Fico imaginando o cérebro da propaganda nazista -  Goebbels, um dos primeiros marqueteiros da era moderna – com uma “internet” em suas mãos... Não que não hajam vários Goebbels, soltos por aí... Com suas velhas ideias e métodos...

Objetivamente, o país – e o mundo - passa por um período que penso ser mais reflexivo do que ativo, muito embora a roda da História, com seu giro implacável, insistir a mostrar-nos o caminho do pessimismo e de nova destruição.

E é nessas reflexões que quero falar.

Allan Kardec, sabiamente, em “A GÊNESE” e em “OBRAS PÓSTUMAS”, já nos apontava para esse período – inexorável – para todos nós, espíritos ligados ao planeta: trata-se justamente desse período, em que as transformações do planeta começam a acontecer – de um mundo de expiação e de provas para um mundo regenerador. Entretanto, muita gente anda se confundindo com isso e achando que tais “mudanças” (digo-lhes... O que realmente muda?) político-eleitorais significam exatamente este “sinal”. Peço-lhes desculpas por qualquer mal entendido, mas, como diriam outros, “uma coisa é uma coisa; outra coisa, é outra coisa”.  Penso que muitos que assim raciocinam – peço desculpas, novamente – NÃO LERAM, nem uma, e nem a outra obra citada; e, quando muito, se leram, fizeram tais leituras descontextualizadas, isto é, quando “retiramos” determinados trechos de determinados livros e os colocamos fora do contexto em que o autor se expressou, para, na maioria das vezes, justificarmos aquilo que pensamos, fazemos ou queremos. Não é por aí...

Esse período em que estamos passando, no planeta, é um período de TRANSFORMAÇÃO, EVOLUÇÃO e não de VOLTA AO PASSADO, como querem muitos (isto não sou eu quem diz, mas as “urnas disseram”... Vejam os mapas eleitorais, disponíveis no “site” do TSE, que não me fazem mentir). E esses períodos, também, SÃO CÍCLICOS, já que a evolução NÃO TEM FIM. Quando lhes digo isso é para que reflitamos em cima disso: nada, absolutamente nada fica estático na natureza. O planeta e seus habitantes não poderiam deixar de serem iguais...

Significa dizer, então, que eleição, expressão de idéias, sentimentos, não significam, não traduzem, necessariamente, EVOLUÇÃO E TRANSFORMAÇÃO, nem do planeta, nem dos espíritos. Significam apenas o que elas são, por si sós.

Esta foi uma das coisas que vi e ouvi por entre esses dias – de reflexão. Lamento, mas lamento muitíssimo quem assim pensa – e não são poucos, mas, recomendo uma leitura ATENTA e desprovida de pré-conceitos das citadas obras e, SOBRETUDO, da parte QUARTA de O LIVRO DOS ESPÍRITOS, também tão pouco lido (que dirá estudado), infelizmente, por muito de nossos confrades...

Muito bem. Esta foi a minha primeira impressão desses dias... Desde as manifestações de 2013 – acho que já escrevi sobre, em outra postagem... Deem uma olhadela, por gentileza – passando pelo GOLPE DE ESTADO (sim, é... É GOLPE DE ESTADO. Até quem proporcionou o golpe já o admitiu, publicamente) em curso no país e culminando nas eleições municipais de domingo passado...

Outro aspecto, não menos importante, é o que se costumou a dizer, quando “mudanças grandes” (grandes mudanças é outra coisa) ocorrem num determinado período da História, de um povo, de um país: que determinados costumes mudaram e, no nosso caso específico, que determinada prática política a população não mais tolera, daí “o recado das urnas”, como dizem os “experts” da televisão (viciada, como sempre, em defender seus próprios interesses, que não significam, na maioria das vezes, os interesses da população); tais “experts” são escolhidos “a dedo” pelos donos das emissoras, para expressar justamente a opinião do dono delas (estarei enganado? Fosse você dono de uma emissora, o que você faria? Expressaria contrariedades aos seus interesses e opiniões?). Dentro do rol de “experts” encontram-se desde o jornalista, “cientistas políticos”, passando até pelos próprios políticos, que tem vez e voz, na medida em que se coadunam – claro! – com a opinião do veículo em que podem podem expressar-se. Algumas candidaturas, por exemplo, tiveram que conseguir na Justiça o direito de participar dos debates entre os candidatos...  Para refletirmos...

Deem-me mais um tempo – não precisa muito, para vermos se, com os eleitos, as velhas práticas políticas, que supostamente estarão no passado, farão parte realmente do passado. As velhas práticas políticas, personificadas nos velhos políticos, que supostamente a população “varreu” das urnas... Será?

Isso para refletirmos em mais um novo aspecto: O REFLEXO. Sim. Torno a dizer o que já disse algures: nossa representação política é o nosso ESPELHO: igualzinha a nós. Apenas “depositamos” (ou clicamos) nas urnas aquilo que somos, no íntimo. E aí, abrimos para mais uma reflexão: as manifestações de 2013, o GOLPE DE ESTADO e as eleições que ocorreram fazem parte de um só todo: o povo brasileiro, em grande parte, mostrou-se tal qual é e os reflexos disso serão sentidos no conjunto social, como num todo, neste momento e doravante. Percebam que estamos voltando, de certa forma, lá no começo. Do texto e da História. “A História se repete, ora como tragédia, ora como farsa”, disse Marx. Sem descontextualizar...

Isso para dizer que quando reclamamos da nossa representação, reclamamos de nós mesmos: se sórdida, é porque a sociedade é sórdida; se altruísta, somos altruístas, e fazemos por assim nos representar. Digo-lhes quanto ao conjunto, isto é, socialmente representados. Porque ninguém vive ou caminha sozinho, como logo colocaremos.

Outro aspecto, também, deve ser considerado: as pessoas, no Brasil especificamente, tendem a PROJETAR suas vidas nas pessoas que elas pensam ser “bem sucedidas” (na vida material): isso se explica, em boa parte, porque o pobre vota no rico e nas suas propostas de prosperidade (material), sucesso, etc. Fazem o mesmo com os artistas de televisão, as personalidades, sempre sorridentes, que demonstram ter uma felicidade inesgotável. A vida que gostariam de ter está personificada nessas figuras, nos lugares que frequentam, nas roupas que usam, no que comem, na magreza e/ou corpos atléticos (sempre brancos) que exibem, nos automóveis que possuem, nas satisfações sexuais que supostamente experimentam... E não somente os pobres fazem isso, mas também muita gente que não pode ser classificada como tal. E é por isso que existem as chamadas “classes médias”, que possuem um pouco mais de acesso a tudo isso, iludidas que estão, quanto à sua condição, ainda inferior, na “escala social”, com podemos dizer, e que sequer tem a noção da verdadeira natureza da riqueza material, de como ela se estrutura na sociedade e quem verdadeiramente faz parte dela, que existe, e em qualquer sociedade.

Fazem uso recorrente de uma nova palavrinha, muito em voga, por aqui, mas velha, muito, mas muito velha: meritocracia, traduzida e batizada historicamente no individualismo, isto é, “você conquista pelos seus próprios méritos”, e que todos serão ricos e prósperos, se assim procederem, o que pressupõe, necessariamente, liberdade - sem igualdade e fraternidade, o que “de per si”  colide com as divisas que o próprio Kardec nos traz nas obras citadas. Sim, nessa estrutura social o ser é livre... Até onde permite sua condição FINANCEIRA, para fazer ou deixar de fazer.

Tal contradição, dentro da lógica do sistema também foi exposta, tanto pela Teologia da Libertação – doutrina da Igreja Católica que procura trazer os aspectos mais relevantes da passagem do Cristo para a realidade dos católicos - , quanto pelos pensadores mais relevantes do séc. XX, tais como Max Weber, em sua obra “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, que também aponta, com muita propriedade, as contradições entre o referido sistema – em que vivemos – e as posições mais basilares dos primeiros cristãos, isto é, a velha contradição entre o capitalismo e o cristianismo... É bem aquela música,  que diz, com propriedade... “... somos burgueses sem religião...”.

Não vou entrar no mérito dessas contradições; apenas as coloquei aqui para nossas reflexões. Quem quiser aprofundar-se...

Mas, instiga-me a observar um outro lado da conjuntura: declarar-se sem religião e “sem política”, para parecer-se POLITICAMENTE “CORRETO”. Lembro-lhes de que um candidato, na maior cidade do país, venceu as eleições disparado na frente,  em primeiro turno justamente enfatizando seu aspecto de “não político”, “não da política”, “apolítico”, justamente no mesmo diapasão das manifestações de 2013, onde se "detectou" a crise de representação política.

Sim. os números não mentem e contrariá-los seria loucura. Essa "vitória" foi obtida com cerca de 3 milhões de votos, pouco mais, pouco menos de 1/3 dos eleitores... Somados os brancos, nulos e abstenções, estes vencem o referido candidato em quase 200.000 votos... Num universo de quase 9.000.000 de eleitores e quase 15.000.000 de habitantes... A democracia representativa, então, também está em crise... E não é de hoje... Muito em função justamente por conta desse discurso demagógico e asqueroso de "não político", ou "apolítico", que vem tornando-se a mina de ouro de aventureiros e oportunistas de toda a sorte (não é o caso do referido candidato, que sabe muito bem o que faz e a quem deve servir). A quantidade de insatisfeitos salta aos olhos de qualquer observador menos atento.

Somem-se a isso o voto obrigatório, que soi acontecer em um país pouco afeto à democracia como nosso, fomentando o clientelismo, a compra desenfreada de votos e os sortilégios de toda a sorte. 

Isso, sim, é crise de representação! 

Não esse discurso rasteiro de "velha política" ou "velhos políticos", que, facilmente os próprios números desmentem tal falácia.

A título ilustrativo, semelhantemente, um outro candidato, nas eleições de 1996 também, a exemplo deste citado, elegeu-se com esmagadora maioria de votos, com igual discurso e sob as mesmas condições dessa conjuntura. Falo às pessoas que não se lembram, ou que não conhecem: Celso Pitta, o próprio. Demais desdobramentos disso vocês que não vivenciaram ou desconhecem podem procurar na “internet” e verificar o que falo. A única diferença é que, naquela ocasião, o candidato referido quase ganhou as eleições no primeiro turno... Por ínfimos 0,3% dos votos... Naquele dia, caiu um baita toró em São Paulo e eu estava fazendo boca de urna para o partido e a nossa candidata - Luíza Erundina, com um guarda chuvas todo furado e espicaçado, vendo as pessoas, em sua maioria, nervosas para "decidirem logo" no primeiro turno e votar no "Pitta", pois teriam que viajar... Naquela época somente quem tinha muito dinheiro - há 20 anos!- podia dar-se ao luxo de viajar num feriado, e as eleições "caíram" no meio de um. Não era como hoje, que se estabeleceu as eleições no primeiro e no último domingo de outubro. 

Digno de registro, curioso é notar o eloquente silêncio, quanto a tudo isso, dos "experts", dos "analistas", "cientistas políticos", falando sobre as eleições, no domingo e nos dias que se sucederam...

Ora, todos sabemos que, o ser humano, desde que retoma as rédeas de sua vida pratica política, opinando e decidindo, sobre isso ou aquilo, individual ou coletivamente. E por assim fazer, expressa uma determinada corrente de pensamento na sociedade, que, por sua vez, detém determinada representatividade nos cargos de direção dos povos, que não se faz senão através de PARTIDOS POLÍTICOS, que, bem ou mal, queiram as pessoas ou não, expressam essas mesmas correntes de opiniões.... Partido significa “parte”.  Daí, os perigos, dos fenômenos da massificação de determinados aspectos da política, sem a necessária reflexão e, claro, sem a necessária oportunidade de obtermos outras opiniões contrárias àquilo que se expressa como a “verdade”, questão, aliás, basilar de qualquer democracia... Que ainda é o menos pior regime.

É por isso que as eleições tornaram-se, no Brasil, um grande CAMPEONATO de TIMES DE FUTEBOL (futebol que também se tornou um fenômeno de mídia), onde o MEU CANDIDATO, “venceu”... “está na frente”... Para poder sobrepor-se ao outro, insuflando, ainda mais, o ódio, o orgulho e o egoísmo no seio social... 

Pergunto-lhes: Isso é evolução espiritual?

Disse-lhes “candidato”, e não “partido”, pois o brasileiro, em sua grande maioria, vota no primeiro, e não no segundo... EXCETO se for contra o segundo, a exemplo dos paulistas e dos paulistanos... e num específico: o PT. 

Eis aí um outro aspecto de nossa conversa.

É necessário, porém, que façamos uma observação: nessas eleições, salvo em alguns lugares do país, a população votou, na maior parte do país, tal qual os paulistas, pelos motivos que iremos colocar mais adiante...

Sim, o PT, partido no qual militei durante 15 anos. Nunca escondi isso de ninguém e não seria agora que iria ficar, digamos, “em cima do muro”. Não, não sou assim. Antes de o Brasil tornar-se verdadeiro – e os paulistas  também – eu já o era.

O PT e suas contradições, suas brigas, suas discussões, suas tendências internas (será que ainda existem?), suas infindáveis e exaustivas reuniões (será que ainda existem?), as cadeiras voando... as pessoas defendendo a revolução, outras, não, suas idéias, seus ideais... Será que tudo isso ainda existe, por lá, passado tantos anos que de lá saí?....
Sabem, às vezes tenho um pouco de saudades disso tudo... Aprendi muito, por lá e cresci muito. Talvez o grande aprendizado foi RESPEITAR O OUTRO E A OPINIÃO DO OUTRO (para nós, outros, hoje, “do próximo”, substancialmente diferente), coisa difícil, hoje, na sociedade em que vivemos, por conta mesmo dessa “futebolização” da política, já sobredito.

Talvez seja esta a resposta do motivo de eu estar aqui, utilizando o meu blog para poder tentar entender tudo isso. Pelo o que eu tenho visto e, sobretudo, sentido, o PT também ainda não entendeu. E nem tem procurado entender, tamanha é sua soberba stalinista.

Isso nos remete às velhas (aqui entendidas como AS DE SEMPRE) premissas da esquerda clássica, que o PT sempre fez questão de rechaçar: a história da luta de classes, no Brasil e do mundo, suas origens, consequências e atualidade, o que, politicamente, devem ser trazidas à baila em qualquer discussão política de alto nível que se preze no campo da esquerda (sim, ainda precisamos rotular, para melhor entendermos); porque justamente é em cima dessas mesmas discussões que se traçam as estratégias de atuação e de poder de qualquer grupo esquerdista no mundo: análise da atual conjuntura da luta de classes num determinado local, país, mundo.

E o PT, “esquecido” disso, foi com tudo, “botou os pés pelas mãos”, como se diz no populacho, e quase desapareceu, não fosse ainda sua influência em muitos setores das organizações sociais, ou sua “base social”, como falamos na política.

Deslumbrado com o poder – e todas as consequências que lhe são, infelizmente, ainda, inerentes – esqueceu-se (sem aspas... deliberadamente, mesmo) daqueles outros, os mesmos que eles fizeram tão bem em proporcionar-lhes ESPERANÇA, que é tudo o que o ser humano quer: ter ESPERANÇA... 

...No quê?... Vamos refletir sobre isso, mais para frente...

Esqueceu-se de SUA MISSÃO HISTÓRICA, isto é, o motivo pelo qual foi criado: conscientização das pessoas, fazer uma nova política, diferente de tudo o que havia sido feito no Brasil, etc., isto é, ser o que deveria ser: um partido dos trabalhadores... e de trabalhadores. 

Volto-me à primeira necessidade: CONSCIENTIZAÇÃO, a primeira lição de qualquer criatura que aspira ou reconhece-se “de esquerda” e não “da esquerda”, como se diz.

Para quem não conhece, conscientização é justamente ABRIR A MENTE das pessoas, para que elas, de cara, PERCEBAM-SE, como seres humanos, isto é, que elas EXISTEM; depois disso, é preciso que elas TOMEM CONSCIÊNCIA de que a vida delas NÃO DEPENDE SOMENTE DELAS, que vivem, nascem e morrem em sociedade, necessariamente, e que TODOS DEPENDEM DE TODOS, e que NÃO HÁ SOCIEDADE que sobreviva sem isso. Não há estrutura social que sobreviva sem esse entendimento, isto é, que estamos TODOS LIGADOS, uns aos outros, e que por isso mesmo, foi-nos dados os sentidos; e que, principalmente, o OBJETIVO DA VIDA É OUTRO; não é nascer, consumir, procriar e morrer; e que, fundamentalmente, SOMOS ARQUITETOS DE NOSSO DESTINO, e que, para isso, precisamos conquistar a LIBERDADE – de sermos senhores e arquitetos de nosso destino.

Sim, LIBERDADE, conquista-se. Não nos é dada de mão beijada. E, dentro do conceito e definição de LIBERDADE, está contido o rompimento de todos os atavismos que nos prende às nossas “necessidades”, ou "desejos", sempre criadas pelo próprio sistema em que vivemos (porque sem elas ele morre): o tal FETICHE DA MERCADORIA (bens de consumo), onde se inclui também o ser humano como um bem a ser vendido e consumido, que Karl Marx observou muito bem.

O PT achou, então, durante todo esse tempo, que bastava a manutenção dessas estruturas – mais velhas, no mundo, do que “andar para frente” - ,  e que tudo iria dar certo e eles ficariam DEITADOS ETERNAMENTE EM BERÇO ESPLÊNDIDO, “dando as cartas”, aqui, acolá e que, de repente, essa história de luta de classes, no Brasil, não era verdade, e que os mais pobres estariam satisfeitos, insuflando-lhes a moda do consumo desenfreado; e os mais ricos, também, com seus nacos de poder pútrido e viciado, observando tudo e deixando os de baixo ascenderem socialmente...

Veio a periferia das grandes cidades, seu berço, sua estrutura política e eleitoral e, durante esses anos, entrou “de cabeça” nisso tudo, isto é, comprou celulares, TV de led, automóveis, encheram carrinhos de supermercado, chegaram a um curso superior, tiveram uma profissão, viajaram de avião, deixaram de ser domésticas e pedreiros e, consequentemente, de servir aos seus senhores.

E, por outro lado, com suas concessões, em nome da “governabilidade”, através de uniões e práticas espúrias, justamente com aquela velha política e àquelas velhas práticas, achou também que agradava a esses mesmos setores da sociedade - os de cima - , viciados há séculos com o “modus operandi” do poder no Brasil. 

Essa estrutura sufocou-o e embriagou-o de tal forma que eles se acreditaram fazer parte dessa mesma estrutura – corrupta e abjeta – que, repito, HÁ SÉCULOS GOVERNA O BRASIL.  É desta análise – REAL E OBJETIVA - que o PT se furtou, a todo tempo, e a todo custo. Pensou que era elite e sonhou ser ela... O tempo todo... E que ela ia ficar quietinha, sem domésticas, pedreiros, vassalos, criadagem; vendo seus filhos rentear vagas em Universidades, em aviões para o exterior com os filhos dos pobres e negros... E amanheceu sem nada: sem suas principais bases sociais, sem seus princípios éticos (sim, tinha-os), filosóficos e políticos... e, claro, culminando na perda de seu naco de poder...

O PT não só perdeu o poder (político), mas também, perdeu-se: nenhum candidato do partido, pelo menos os mais relevantes, veio a público para denunciar, por exemplo, com medo de perder votos, o golpe de Estado que a população e a democracia sofreram... Votos daquela mesmíssima "classe média" sobredita, que absolutamente nunca o teve por opção ou por escolha livre, ao contrário, sempre procurou, de todas as formas, sabotá-lo e determinar o seu fim (chegando a ponto, inclusive, de sabotar as próprias cidades em que governavam, como na administração da Luíza Erundina, p. ex., quando pagaram verdadeiros meliantes para rasgar sacos de lixo nas marginais, para imputar à cidade de São Paulo com a pecha de suja) - , como ainda ansiosamente e de forma sistemática objetivam. Nenhum deles se identificou com o símbolo, com a bandeira e com os dizeres que os remetem ao partido... Perderam, inclusive, suas próprias referências, objetivando sempre o velho jogo eleitoral (de cartas marcadas, sabemos), como um fim em si, com seu jeito caolho de ler da correlação de forças na sociedade em que vivemos, e, o que é pior, afastando-se das ruas, imantados que estão em seus gabinetes... até 31/12/2016....

Esqueceram-se da luta de classes; que as pessoas tem interesses divergentes na sociedade; que esses interesses NÃO SE MISTURAM, ao contrário de que muita gente pensa, ou sonha (capital e trabalho); e, como diria uma política do nordeste, muito coerente e contemporânea, “lambuzou-se no banquete farto do poder”. Demonstrou, isto, sim, a velha prática stalinista, tão mesquinha, ignorante e burra quanto ao seu mentor, de ter o poder pelo poder e de cooptar as pessoas que pensam diferente, ora pagando, ora “apagando” - esta última, graças à Deus, não chegaram a fazer. Hoje, muitos que lá estão, nem sabem o que isso significa e o que significou não só para o mundo e para a História, mas também para a esquerda – verdadeira e democrática.

Não. Não se assustem. Quando falo em LUTA DE CLASSES, não se assustem. Estou sendo MÓDICO, na expressão. O que se viu, aqui em São Paulo e em grande parte do Brasil, durante todo esse tempo, foi, sim, um ACIRRAMENTO dessa luta de classes, com ímpetos de rompimento entre amizades, pessoas, Estados brasileiros, cujo término está, ainda, muito longe de chegar, com suas consequências imprevisíveis, do ponto de vista da organização social.

Iniciou-se e continua sendo um período em que se disseminou um ódio ferrenho, tanto de classe, quanto com relação aos indivíduos. Esse ódio, latente em nós durante séculos apenas foi despertado por essa massificação de informações e deformações (quem conhece a verdade das coisas?), com essa mistura do "meu time" e do "meu candidato", insuflando as más paixões que ainda predominam em na nossa natureza animal. 

Qualquer opinião - como esta que lhes endereço - contrária ou mesmo que pontua esse ou aquele porém, dentro desse verdadeiro massacre que houve - e continua  - , que imputa a esse grupo político como "os únicos ladrões", ou "inventores da corrupção", é tida como se nós, que temos essas opiniões contrárias a esse quase uníssono, porque não formamos opinião, nem com a "maioria", nem muito menos com a mídia de imprensa que sabemos tem seus interesses e manipula as informações de acordo com esses mesmos interesses, é tida como se nós estivéssemos e fizéssemos parte das mazelas administrativas praticadas por esses indivíduos, que a História dirá, se são ou não culpados ou inocentes.

E, como o ódio é cego "esquecem-se" que, também, seus "candidatos" e seus "partidos" igualmente chafurdam no lodaçal da malversação dos recursos públicos, de há muito tempo. Então, tornou-se aquilo que conversamos com algumas pessoas, de que "o meu ladrão favorito" pode roubar, mas o "PT", não, o PT não pode roubar. Percebam que a grita longe está de ser contra a corrupção, a favor da moralidade e da boa gestão dos recursos públicos. Digo-lhes isso, para que possamos entender que isso faz parte da história da luta de classes no mundo. Adolf Hitler subiu ao poder na Alemanha - PELO VOTO - justamente com esse tipo de discurso, de ódio e de falso moralismo (para nós outros, os velhos fariseus de sempre); Bennito Mussolini, também. 

Que EVOLUÇÃO, pergunto, é esta? Que RENOVAÇÃO é esta? Que VALORES são estes?

A propósito, Victor Hugo, em sua obra PÁRIAS EM REDENÇÃO*, livro editado pela FEB - Federação Espírita Brasileira, vem trazer a nós todo o perigo dessa disseminação de ódio e rancor e o quanto isso é pernicioso. Tenho dito que o ódio nada constrói e tudo o que supostamente é construído por ele, destrói-se por si só. 

Vamos abrir um parênteses na nossa conversa, para entendermos o que referido autor nos traz, através da mediunidade de Divaldo Pereira Franco:

"O ódio é semente de destruição, que ressuda tóxico corrosivo a aniquilar interiormente. Aqueles que não alcançados pelas suas nefandas e morbíficas destilações de tal forma se impregnam que somente o mergulho em novas formas carnais consegue diminuir a mortífera emanação. Desenvolvível no homem, por processo de educação deficitária, desde a mais tenra infância, na qual se injetam os germes do egoísmo, da prepotência, da vaidade, muito facilmente medrarão os princípios da ira, que se transforma em rancor, logo tenham desconsiderados seus propósitos inferiores. Em toda parte, os semens do ódio se encontram latentes, considerando-se que na Terra, ainda, a força do instinto predomina sobre as manifestações da inteligência e do sentimento, numa conspiração formal contra a evolução do ser e sua consequente libertação das amarras primitivas.".

"Enquanto predomina a natureza animal, em detrimento da natureza espiritual, o homem se aventura na posse indébita dos favores transitórios e promove a guerra, exteriorizando os princípios selvagens que ainda vigem no seu ser. A impiedade se manifesta desde cedo, nele, mediante a indiferença pela dor do próximo e, se por acaso é convocado à justiça para selecionar os criminosos, em defesa dos cidadãos probos e corretos, aplica a lei não como correto e processo de reeducação, porém, na forma de punição e vingança, como se a justiça fosse exclusivamente cirurgiã e não processo retificador de educação e disciplina, em que o amor deve preponderar. A violência medra porque há clima propício para rebeldia e o ódio se instala porque encontra reciprocidade na atmosfera moral das criaturas. Quantas vezes, ante as calamidades, as tragédias ou as injustiças de que alguns são alvo, cidadãos pacatos se rebelam, dando vazão a sentimentos que já não se aceitam sequer nos bárbaros?! Quantas pessoa de siso e dedução se revelam vândalos, desde que estejam a sós ou se acumpliciam em malta, instigados por nonadas que lhes açulam as manifestações primárias?! Por essa razão, a paizão de qualquer natureza deve ser motivo de disciplina pelo homem de bem. Nem a indiferença ante a aflição do próximo, nem a exacerbação pelo sofrimento injusto. Moderação é medida preventiva para os estados que a patologia, nos estudos psicológicos, examina como capítulo básico da degenerescência do homem. Quando rutilarem as morigerantes lições do Cordeiro, na Terra, o ódio e seus sequazes baterão em retirada, dando lugar ao clima de amor por Ele preconizado e vivida até a cruz". 
*(p 88/89, 2ª ed., RJ, 1976).

Por isso que lhes chamo a atenção, que POLÍTICA é coisa séria... Assim como futebol deveria ser, mas não é. Mas são a água e o óleo: NÃO SE MISTURAM E NÃO DEVEM MISTURAR-SE.

Num primeiro momento, esses elementos fomentaram tamanha discussão – direcionada, ainda, no calor das paixões futebolísticas – que os mais sensatos não conseguiram tirar uma boa lição disso tudo. Acho que podemos vislumbrar essas boas lições, para todos nós. Pelo menos, tudo ficou às claras, para todos nós: “reis”, “rainhas” e vassalos ficaram NUS, uns diante dos outros: todos sabem o que todos pensam a respeito de como queremos as coisas. É mais honesto, assim, penso. Para o bem, ou para o mal, o PT teve (e, aviso-lhes, talvez ainda tenha) o seu papel nisso tudo e não chegou ao (parte) do poder à toa, ou por força de determinada circunstância. Chegou porque deveria chegar. E, saiu, também - nas urnas, e não no GOLPE DE ESTADO, ilegítimo, por si só – porque deveria sair. Assim como os outros, que VOLTAM: tem, agora, a vez de VOLTAR (muitos nunca saíram!) e sairão, também, da mesma forma.

Entretanto, não digo que as pessoas, por conta de tudo o que aconteceu, estão mais, digamos, atentas e participativas, como muitos proclamam solenemente. A percepção que se tem é que, com as facilidades de troca de informações – e deformações – houve, sim uma ação incisiva, uma reação quanto a tudo isso. Mas, se entrarmos no cerne desta reação veremos qual ou quais são os móveis que a propiciaram e, pela “voz das urnas” certamente, o que se vê, torno a dizer, é mais um capítulo da luta de classes no Brasil, já exaustivamente colocado acima.

Muitas, mas muitas delas, mesmo, irritam-se com a possibilidade de outros seres humanos terem uma vida digna, de poderem participar do processo social sem serem subservientes, indolentes, objetos dóceis e necessários à determinadas situações e condições (é a isto que chamamos “luta de classes”, ou a dominação do ser humano sobre outro). É compreensível, dentro de uma sociedade estruturada na base do egoísmo, do orgulho, do individualismo e do despeito, tal qual a nossa. O que precisam entender é SERMOS DONOS DO NOSSO DESTINO, LIVRES, FRATERNOS E SOLIDÁRIOS É O DESTINO DE TODOS NÓS. INEXORAVELMENTE, queiram  elas ou não. Este dia virá, pode ser hoje, pode ser amanhã. Mas não escaparemos, e TODOS terão a ESPERANÇA e o direito de serem felizes. Não há chegar a Deus – que é o objetivo de todos nós – senão em vida social (e não em REDE SOCIAL). Ninguém chegará às culminâncias da evolução espiritual SOZINHO. Tirem essa ilusão de vocês, se vocês a tem. Fosse deste modo, Deus criaria um planeta para cada ser existente, o que a lógica racional contradiz, a despeito de muita gente ainda achar que Deus criou o planeta somente para elas...

E que, jamais teremos o mesmo nível de vida a que muitos almejam: o padrão de consumo (que confundem com nível de vida) dos norte-americanos. Seriam preciso 5 (cinco) planetas terras, em recursos, para que todos, todos os 7 (sete) bilhões de habitantes pudessem viver desse modo. Portanto, estamos um pouco distante, ainda, de um mundo de regeneração, que se está a ser construído, e não a esperar “anjos” e “arcanjos”, como num passe de mágica, modificar as coisas por aqui. Não. Não tentem por aí que a coisa não funciona desse modo. Não deixem se levar pelas ilusões da matéria e pelas conversas, por aí, de alguns incautos, de que somente “eu”, que sou “bonzinho” e “não faço mal (a quase ninguém) é que vou me salvar”, e os outros, que “não são pessoas de bem” irão chafurdar e pagar suas torpezas lá no inferno... ou no umbral... E, também, como num passe de mágica, Deus “vai dar um sumiço” nessa turma toda e irão desaparecer do Universo... E só irão ficar nós, “os bonzinhos”...

Vamos, sim, reencarnar quantas vezes forem necessárias e se, pela lei de afinidades, reencarnamos num mesmo grupo social, então...

Eleição, então, é um momento. Triste, para alguns, feliz, para outros. Tomara esteja você, que me lê, feliz por outros motivos; triste, também por outros motivos, que não de uma eleição, com eu já estive, triste ou feliz, por conta de uma simples eleição. Adquiri até uma gastrite, por conta disso. Isso é muito ruim. Não lhe desejo isso. Aprendi, a duras penas, a ser feliz, independentemente das circunstâncias. Mesmo vendo as pessoas passarem fome; sem ter onde morar; mesmo vendo a iniqüidade prevalecer; mesmo vendo as injustiças acontecerem; mesmo vendo o sofrimento moral de muita gente; mesmo vendo a solidão de muitos; mas aprendi, não a duras penas, mas aprendi, sinceramente, que se trata de um momento transitório, e que todos nós seremos felizes, ainda aqui, na terra; não totalmente felizes, por que, aqui, isso não nos é possível: requer-se um estado permanente de felicidade, somente granjeado pelos Espíritos puros, que é o nosso destino. E jamais poderemos ser plenamente felizes, enquanto tudo isso, ainda, permanecer, por entre nós. Todos nós precisamos modificar-nos, isto é fato. Mas o mundo também precisa. E ele não é nosso destino, nosso fim, senão apenas um momento da nossa Existência, dentro da Eternidade. Acreditem. Nós conseguiremos.

Mês que vem vamos tentar falar um pouco do final de 1966, de suma importância para o rock e para os Beatles, que, há 50 anos, começavam a criar o maior disco da história...

Até breve, e um forte abraço ao meu amigo André Okuma, que me inspirou a escrever sobre essas coisas... E minha esposa, que esperou eu digitar esse "textão". Estava mesmo precisando, principalmente descobrir porque isso tudo ainda mexe comigo. Ah, a política... Tomara finalmente tenha superado tudo isso dentro de mim, já que a política partidária foi embora há muito tempo. Ainda bem. Acho que isso faz mais mal do que bem, para mim. Vamos aguardar esses processos internos.